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Vendas amarradas

 

 


Foto: Ronaldo Silva Jr.

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Catálogo da Indústria Marítima

 

Fabricantes de equipamentos de fundeio, atracação e reboque cobram políticas para aumentar competitividade

 

A expansão do setor naval movimenta a economia, atrai empresas e motiva diversos segmentos. Por conta disso, a possibilidade de novos negócios têm deixado os fabricantes com grande expectativa. Apesar das incertezas sobre o pré-sal e ampliação

 

de portos e estaleiros, os fornecedores enxergam crescimentos entre 20% e 30% em suas vendas nos próximos anos. É o que acontece com as empresas que fabricam material de atracação, fundeio e reboque. Interessadas em aumentar suas vendas, essas companhias estão atentas e cobrando mudanças políticas que deem fôlego a seus produtos. Na disputa pelas encomendas, as empresas tentam conter alguns gargalos de forma a impedir a perda de competitividade diante da forte concorrência externa.

 

“O mercado está bastante aquecido e muito disputado com diversos fabricantes nacionais e importados. As encomendas têm aumentado com as novas obras dos programas de construção de barcos de apoio, rebocadores e supply boats, embarcações de navegação interior e obras de portos em geral”, conta Francisco Strauhs Neto, diretor da Navalsul. A empresa, que fabrica equipamentos de convés (guinchos, guindastes, molinetes, cabrestantes, turcos e tuggers) e conjuntos propulsores, avalia que 2011 está sendo um ano de vendas semelhante aos anteriores. No entanto, Strauhs revela que a fabricante espera um aumento de 20% ao ano a partir de 2012, no máximo, em 2013. “Projetamos para os próximos 10 anos um aumento significativo das encomendas para atender ao mercado offshore, portuário e de navegação interior”, detalha.

A Acro Cabos de Aço possui a perspectiva de crescimento de 15%, em 2011, e de 25% nos anos seguintes. A empresa oferece soluções e projetos de elevação, amarração e movimentação de cargas. O gerente comercial da Acro, Rafael Garcia Simon, observa que a demanda tem aumentado muito, entre outros motivos, por conta de as empresas realizarem acompanhamentos dos materiais de elevação e movimentação de cargas, com o objetivo de garantir maior segurança dos seus colaboradores. “Materiais que antes eram usados mesmo em condições de descarte, hoje já são barrados nas operações, gerando substituições e, com isso, um aumento na demanda”, observa.

Simon destaca que a a política de compra de equipamentos no Brasil pela Petrobras vem fortalecendo os estaleiros aqui instalados e movimentando a indústria nacional de equipamentos. Ele também aponta como de grande impacto a chegada de empresas privadas, que aportam investimentos elevados, interessadas numa provável saturação nos portos existentes.

“Nos últimos anos, temos notado um aumento muito grande de equipamentos do mercado portuário vindos do exterior como, por exemplo, guindastes. Estes equipamentos utilizam cabos de alta performance, cabos compactados e cabos de aço com oito pernas. Com o aumento da demanda e a necessidade de substituição dos cabos, a Acro trabalha com uma linha em estoque para pronta entrega”, conta.

Na avaliação de Strauhs, mesmo com o aumento da demanda, as vendas estão estáveis por conta da concorrência com produtos estrangeiros. Segundo o diretor da Navalsul, esse é um dos gargalos a serem resolvidos. O executivo conta que o segmento espera que haja uma maior fiscalização do percentual de equipamentos nacionais, para frear essa competitividade, classificada por ele como ‘desleal’. “Existem novos projetos onde o índice de conteúdo local deverá ser maior e, portanto, cremos que haverá maior demanda”, avalia.

Strauhs percebe que a tecnologia dos equipamentos nacionais está evoluindo em termos construtivos e operativos. De acordo com o empresário, também existe maior confiabilidade dos equipamentos mecânicos, melhores ferramentas de desenvolvimento de projetos e de controle de custos. Uma das razões dessa evolução pode ser o intercâmbio com fabricantes estrangeiros. “Temos parcerias com empresas internacionais especializadas em projetos especiais adequados aos mais variados mercados”, conta. Nesse movimento de entrada de empresas do exterior no segmento, pesa contra as fabricantes brasileiras o câmbio que, atualmente, está desfavorável às empresas nacionais, por conta do baixo valor do dólar.

No último dia 2 de agosto, o governo federal anunciou um pacote de medidas visando estimular a competitividade nacional em meio ao cenário de dólar baixo. O plano incentiva a indústria, prevendo a desoneração de tributos e da folha. No entanto, os incentivos não beneficiaram as fabricantes de componentes do setor naval. Entre as medidas para fornecer melhores condições de competição para as empresas brasileiras estão: a desoneração de tributos, a manutenção do IPI baixo sobre material de construção, bens de capital (máquinas e equipamentos para a produção), além de mais agilidade, segundo o governo, no ressarcimento de R$ 13 bilhões em créditos dos 116 maiores exportadores.

O plano Brasil Maior tenta frear os efeitos da queda do dólar, que atingiu, entre julho e agosto, a menor cotação dos últimos 12 anos, oscilando ao redor de R$ 1,55. Isso porque, com o dólar baixo, as exportações tornam-se mais caras e as importações mais baratas. Um levantamento da CNI mostra que, por conta do dólar baixo, 48% das empresas exportadoras perderam participação no mercado externo em 2010, ou deixaram de exportar no ano passado.

Segundo Strauhs, a questão cambial é o maior entrave à competitividade de seus produtos e dos equipamentos nacionais, acompanhado dos altos custos dos insumos, formação da mão de obra, custos logísticos e tributários. Uma saída para esse problema pode ser o maior rigor em relação ao conteúdo local dos projetos. “O mercado europeu está muito fraco, fazendo com que os fabricantes deprimam ainda mais os preços e margens de comercialização dos equipamentos, porém com a necessidade de conteúdo local, os preços e custos devem se equiparar no médio prazo”, espera.

“Quando eu vejo quanto pagamos de folha de pagamento, quanto recolho de impostos no final do mês e comparo o preço que se consegue fazer com o que se faz lá fora, eu vejo que nós não estamos bem”, afirma Juan Martinez, diretor da Natec, fabricante de equipamentos para área de lançamento de linhas flexíveis, equipamentos de convés, que possui parceria com a SAS Gouda, da Holanda.

Apesar de um bom cenário se desenhando na área de exploração e produção de petróleo, Martinez teme pela situação macro do país, que apresenta uma série de carências. Ele classifica como maiores entraves para o aumento das vendas o real apreciado, a alta carga tributária, altos salários e a falta de pessoal. “Todos esses itens que tiram competitividade fazem com que, às vezes, seja melhor continuar importando equipamentos”, lamenta.

“Nossa competitividade é baixíssima. Nossas condições de competir são muito ruins. A moeda está super avaliada, então, qualquer componente comprado fora do país sai mais barato do que o produzido aqui dentro. Nossa folha de pagamento é extremamente onerosa, além do que os salários que se pagam no Brasil na área técnica offshore são estratosféricos. Isso cria uma soma de impossibilidades”, analisa.

Martinez acredita que uma medida interessante para os fabricantes — mais importante que a obrigação de compra de produtos nacionais — é a redução de juros, carga tributária e a desoneração da folha de pagamento para que as próprias indústrias ganhem competitividade de uma forma consistente. “Conteúdo local é uma iniciativa boa para as empresas que estão no Brasil, mas não é consistente ao longo do tempo. A consistência seria haver condições de produção num ambiente competitivo. No momento em que se dá vantagem competitiva, como obrigar o cliente a comprar equipamento no Brasil, via uma lei ou portaria da ANP, você está me ajudando por um lado e prejudicando o competidor do lado de fora”, observa.

A Natec possui uma linha própria de equipamentos como carretéis umbilicais — aplicados nas plataformas e elevadores estendidos. Ele destaca que parcerias como a da empresa com a SAS Gouda agregam o desenvolvimento tecnológico que as empresas estrangeiras possuem em nível global. Em contrapartida, a Natec contribui com a SAS com o conhecimento do mercado brasileiro e a presença local, o que Martinez classifica como ‘muito importante’ no pós-venda, na assistência técnica e no período após a garantia.

Para o presidente da Pontec Engenharia e Comércio Ltda., Renato Teixeira de Freitas, não há dúvidas de que o mercado vem crescendo de forma consistente e com projeções bastante animadoras, alavancadas pelo plano de negócios 2011-2015 da Petrobras recém-publicado, que prevê um total de US$ 224,7 bilhões em investimentos para os próximos quatro anos. “Os holofotes estão voltados para o Brasil, o que nos coloca na rota de interesse global, atraindo investimentos de muitas empresas e fabricantes. Estamos vendo novos players chegarem de todos os cantos do planeta e a competição está aumentando em ritmo acelerado”, observa.

A consequência natural disso, segundo Freitas, será um mercado maior e mais competitivo. Para o executivo, os clientes estão cada vez mais maduros, passando a calcular o custo dos sistemas ao longo de sua vida útil, não apenas em função do seu preço de compra inicial. Nesta equação, também entra o custo da inexistência de uma estrutura de assistência técnica no Brasil. “É importante considerar que, quando se trata de tecnologia, a questão preço muitas vezes é secundária e o ‘fiel da balança’, que se traduz em competitividade, passa a ser a performance e a confiabilidade dos equipamentos”, ressalta.

Uma das apostas da Pontec é um sistema integrado para auxílio à atracação de navios, telemetria, monitoração ambiental e medição das tensões das amarras, visando o aumento da segurança e eficiência da operação e das manobras nos terminais marítimos. O sistema é desenvolvido pela holandesa Mampaey Offshore Industries BV, da qual a Pontec é representante exclusiva no Brasil. A empresa também representa outras empresas como a holandesa VAF Instruments, as norueguesas Autronica Fire & Security, Jotron AS e Weston Power & Automation e a alemã Deckma Hamburg, atuando desde a logística de importação até o fornecimento.

A expectativa da Pontec é que a demanda aumente 20% este ano, chegando a 30% nos próximos cinco anos. Freitas destaca que o desafio da exploração de petróleo em águas profundas reaqueceu o mercado e a demanda crescente de unidades de perfuração, armazenamento e transporte deste recurso trouxe, junto com ela, a necessidade de uma variedade de equipamentos, sistemas e embarcações de apoio.

Ele lembra que isso ocorreu após um longo período de quase inatividade nas áreas de construção naval e offshore durante toda a década de noventa. “Esse novo panorama propiciou o surgimento de novas tecnologias, empresas e novos modelos de negócios, que refletem uma maior maturidade do mercado e boas perspectivas futuras”, acredita.

Freitas destaca que a indústria vem desenvolvendo novas tecnologias capazes de otimizar os processos produtivos, minimizando os impactos negativos. O sistema integrado de amarração e auxílio à atracação é uma das novidades da Pontec. O módulo, para portos e terminais, permite ao operador monitorar e controlar todas as etapas da chegada até a partida das embarcações que operam nestes locais.

O presidente da Pontec teme a influência do cenário econômico mundial, em especial o preço do petróleo. De acordo com Freitas, esse fator determina a viabilidade dos projetos das grandes empresas que exploram as reservas petrolíferas brasileiras. Outro aspecto importante é a capacidade da indústria nacional de atender às demandas do mercado naval e offshore. Ele diz que, apesar de ser positivo economicamente, o cenário atual mostra um atraso e consequente “engarrafamento” nos projetos de construção de petroleiros e plataformas nos estaleiros do país, sendo este o principal gargalo para a alavancagem das vendas.

 

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