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Memória entra em pauta

 

 

SEP convoca companhias docas e traça diretrizes para manter vivas as memórias portuárias


Porto do Açu


Um setor que não para de crescer, mas que tem a memória fraca. Anos de história dos portos brasileiros se perdem pela falta de acervos organizados. Para fugir da máxima de que o brasileiro não cuida de sua história, representantes dos portos públicos buscam um formato para preservar a memória portuária nacional. Para conseguir realizar esse resgate, o projeto esbarra na dificuldade de apoio financeiro e na falta da cultura de conservar o passado.

 

Os portos públicos do país criarão núcleos de documentação e memória para a preservação de seus acervos históricos. Esta foi uma das iniciativas surgidas do Seminário Memórias Portuárias, realizado em outubro de 2012, em Brasília, organizado pela Secretaria de Portos (SEP) e pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

Outras duas diretrizes definidas foram: atuação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) junto às companhias docas para identificar e organizar os acervos históricos (documentos, imagens e peças); e a criação de um portal virtual com o histórico de cada um dos portos brasileiros. O suporte do IBCT será técnico e garantirá o acesso às informações dos portos numa página na internet.

Participaram do seminário os representantes dos portos de Belém (PA), Recife (PE), Santos (SP), Itajaí (SC), São Francisco do Sul (SC), Rio de Janeiro, Salvador (BA) e Vitória (ES). Um segundo encontro, ainda sem data definida, será agendado com representantes dos portos de Fortaleza (CE), São Luís (MA), Natal (RN), João Pessoa (PB), Rio Grande (RS), Aracaju (SE), Manaus (AM), Paranaguá e Antonina (PR).

Na primeira reunião, cada grupo mostrou seu acervo histórico e as condições físicas onde a memória do porto é guardada atualmente. Os representantes das companhias docas admitem que são poucos os portos brasileiros que possuem um sistema de organização de arquivos. “Na apresentação, tivemos oportunidade de ver a situação de uma forma geral e percebemos que a preservação não é foco do porto”, relata a historiadora e presidente da comissão do Centro de Memória e Documentação do porto de Vitória, Lívia Santos de Morais.

A coordenadora do arquivo do porto de Itajaí (SC), Hilene do Amaral Pereira Granja Russo, defende que a memória da evolução histórica da atividade portuária deve merecer mais atenção. Ela acredita que o projeto da SEP cumpre este propósito. “Constatou-se que é urgente e extremamente necessário que sejam criados mecanismos de preservação da história portuária brasileira”, conta Hilene.

A partir da realidade apresentada pelos portos, SEP, Antaq e o IBCT detalharão as diretrizes do programa. Após a reunião proposta pela secretaria, os representantes do porto de Vitória ficaram com uma impressão positiva das diretrizes e aguardam novos encontros. Lívia, do porto de Vitória, destaca a formação de equipes nas companhias docas para zelar pelos acervos, que deve absorver novos profissionais. “Mesmo de forma embrionária, está começando a preocupação com o bem cultural que deve ser preservado”, comemora Lívia.

Os representantes das companhias docas demonstraram interesse na proposta, mas ressaltaram a necessidade de apoio estrutural e financeiro para organizar a massa documental de séculos de atividade portuária no Brasil. Uma saída é buscar parcerias com empresas privadas e leis de incentivo.

O porto de Vitória, por exemplo, vem discutindo um convênio com o Instituto Phoenix de Cultura para organização e recuperação do acervo, desde a higienização até a catalogação e a digitalização, sem nenhum custo para a companhia. O acervo atualmente está abrigado no armazém I, já separado por categorias.

Entretanto, esse é um caminho difícil e burocrático. A visão dos comandos das companhias docas em relação a esse tema também dita o ritmo e as condições em que os acervos são preservados. Em 2007, o espaço que servia de museu no porto de Vitória foi desativado após 13 anos de funcionamento.

Três anos depois, uma nova iniciativa criou uma comissão para resgatar a memória do porto e organizar o acervo em categorias, como fotos, vídeos, mapas e relatórios de obras. “Essa preocupação existe no porto de Vitória a partir de 2010. Houve uma denúncia de que esse acervo estaria comprometido e daí se formou uma comissão de documentação do porto”, lembra Lívia.

Ela conta que a comissão constatou que não havia uma organização adequada do acervo do porto. Hoje, o espaço no armazém I, construído na década de 1920, não está preparado para visitação. “Foi muito difícil encontrar uma área no porto porque os armazéns ainda são usados pelo operacional”, conta a presidente da comissão do Centro de Memória e Documentação do porto de Vitória.

Outra dificuldade é a contratação de profissionais com formação em áreas diretamente relacionadas à preservação de acervos, como museólogos, historiadores, restauradores e bibliotecários. Em alguns casos, pessoas que executam funções técnicas ou administrativas no porto são deslocadas ou acumulam funções nesses núcleos. “Não é comum uma empresa com foco em embarque e desembarque de materiais contratar, por exemplo, um restaurador de fotografia”, cita Lívia.

Em 2002, o porto de Itajaí iniciou a organização dos seus documentos que estavam dispersos em nove depósitos. O projeto de organização do arquivo é resultado de uma parceria do porto com o Senai de Itajaí. À época, o grupo ganhou um espaço próprio para o arquivo na área da administração, equipado de estantes e computadores. “Hoje já contamos com vários setores da administração organizados, listados em tabelas, informatizados, mas não digitalizados. Essa meta já está traçada e pretendemos realizá-la em breve. Temos ainda muito trabalho pela frente”, relata Hilene.

Ela lamenta a prática de se destinar a guarda dos patrimônios culturais e históricos a arquivos e museus públicos. Hilene acrescenta que poucas empresas particulares do setor têm interesse pelo registro da história do porto. “Como esperar que as gerações que não vivenciaram tempos passados tenham noção do valor dos caminhos já trilhados e apreciem suas marcas em monumentos e documentos?”, questiona Hilene.

Além de fotos e periódicos, os documentos que revelam a evolução do processo construtivo recebem grande valor com o passar dos anos. Lívia, do porto de Vitória, cita que o acervo de fotografias das obras que estão sendo executadas atualmente para ampliação dos berços 101 e 102 do porto capixaba serão documentos históricos de grande relevância daqui a 20 ou 30 anos.

Ela conta que existe muito interesse dos alunos de escolas e universidades em entrar no porto e conhecer sobre sua história. Recentemente, a coordenação de marketing da Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa) agendou visitas de escolas e universidades dentro do porto tentando aproximar porto e cidade. Além disso, na época de alta temporada, 58 mil pessoas de todo o mundo circulam pelo porto.

Esse seria um público potencial para visitação do espaço de memória do porto de Vitória. No entanto, Lívia conta que o centro de documentação precisa de melhorias para poder ser aberto ao público. “Não basta o acervo estar organizado. Ele tem que estar restaurado, armazenado de forma adequada para poder se conservar”, observa Lívia.

Inaugurado em setembro de 1989, o museu do porto de Santos foi criado para contar a trajetória do principal terminal marítimo da América Latina. O acervo conta com documentos, fotos, peças e equipamentos que contam desde os desafios de engenharia para construção do porto. Entre as relíquias estão 700 negativos em vidro, que eram comuns há algumas décadas.

Dentre as centenas de peças em exposição, destaque para uma bússola de 1892, plantas e documentos do início do século XX. Além do acervo abrigado no prédio, foi reintegrada a primeira locomotiva a vapor do porto, que está inalterada ao longo de quase um século.

O próprio prédio que sedia o museu é parte da história. A casa número 1 do porto de Santos expressa as novas formas de morar, introduzidas no fim do século passado, num período de renovações urbanas, quando a classe burguesa abandonou seus grandes sobrados no centro da cidade, passando a construir palacetes nos novos bairros e avenidas.

Hilene, do porto de Itajaí, enfatiza que as pessoas que trabalham em arquivo devem gostar do seu espaço de trabalho, de analisar documentos e do “clima silencioso” próprio para pesquisa. “Se não tivermos pessoal que saiba valorizar um simples documento ou objeto, não saberemos organizá-lo e preservá-lo”, avalia Hilene.

 

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