A adoção da tabela de preço mínimo do frete, que paralisou o mercado de grãos, também travou as movimentações em diferentes segmentos da indústria brasileira. Ainda fazendo os cálculos sobre o impacto da medida nos custos, que sobem de 20% a até 95% conforme a atividade e a distância percorrida, empresas de diferentes setores estão postergando a contratação de serviços de transporte e logística até que haja maior clareza, ou alteração das novas regras. "Está tudo parado", disse ao Valor um alto executivo de entidade que representa o setor industrial.

Conforme essa fonte, que preferiu não se identificar, a adoção da tabela, proposta pelo governo como uma das contrapartidas ao encerramento da greve dos caminhoneiros, inviabiliza o modelo logístico atual de vários segmentos industriais. Enquanto não houver repasse, não haverá normalização na movimentação de cargas no país, acrescentou.

Segundo cálculos preliminares, o aumento desse custo para a indústria era estimado em média em 20% a 30%. Mas as contas ainda não foram fechadas e há segmentos claramente mais afetados. O vice-presidente comercial da Cecrisa, Paulo Benetton, avalia que, se considerados só os custos com fretes, a alta será de "incríveis 95%" em Santa Catarina, considerando-se o impacto sobre o transporte dos insumos para as fábricas e das indústrias para os clientes. A empresa é a terceira maior fabricante de revestimentos cerâmicos do país.

 

"O aumento dos custos decorrentes do tabelamento do frete é nossa maior preocupação no momento", diz Benetton. Segundo ele, parte da alta será absorvida, mas será necessário elevar preços, o que pode ter efeito negativo na demanda. A Cecrisa ainda não calculou em quanto precisará reajustar preços.

Segundo o diretor-superintendente da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos, Louças Sanitárias e Congêneres (Anfacer), Antonio Carlos Kieling, as empresas do setor estimam que o tabelamento do frete trará aumento desses custos da ordem de 70% a 80%. Os custos totais terão elevação de 3,5%, conforme projeção da Anfacer.

Na indústria química e petroquímica, os primeiros cálculos feitos por uma grande indústria indicam que a conta do frete ficará mais cara em "centenas de milhões de reais". Na siderurgia, as duas pontas da cadeia são impactadas: o frete maior deve encarecer os insumos e o transporte de seus produtos transformados também aumentará. No caso deste setor específico, o aumento médio do frete pode ser de 50%.

No setor cimenteiro, que depende 96% do transporte rodoviário, segundo fontes de empresas o impacto é severo na linha dos custos. Trata-se de um produto de baixo valor e com grandes volumes a serem transportados. "Trata-se de uma medida anacrônica a MP do tabelamento", afirmou.

Do lado das empresas de logística, o sentimento é de "caos", segundo o gerente geral de Cabotagem e Mercosul do armador de navegação doméstica Aliança, Marcus Voloch. Isso ocorre porque o serviço da empresa é "porta a porta" e, além da viagem de navio, contempla a coleta da carga com entrega no porto e a retirada do navio com entrega no destino, ambos trechos feitos por caminhão.

A medida provisória (MP) 832 estabeleceu a política de preços mínimos do transporte rodoviário de cargas, mas a Aliança tem contratos com preços já definidos com os provedores de transporte terrestre, geralmente mais baixos do que os estipulados pelo governo. O trecho entre Santos (SP) e Varginha (MG), por exemplo, teve aumento de 151%. Até ontem, a Aliança estava negociando preço com o transportador.

O executivo disse ao Valor que as dúvidas foram levadas à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mas ainda não houve resposta. Como consequência, a Aliança - responsável por mais de 50% da cabotagem brasileira - está trabalhando na expansão de sua carteira de clientes (o dono da carga) com um horizonte de curto prazo.

"Não estamos cotando nada com validade maior que uma semana. Ninguém sabe se daqui uma semana muda tudo", disse Voloch. O executivo afirmou que, no momento em que ficar claro o que vai acontecer com os fretes rodoviários, será a "hora de sentar com todos os clientes e renegociar os contratos". A Aliança tem mais de 1.100 clientes ativos.

Ex-presidente da empresa de logística Ryder e conselheiro de fusão e aquisição da BBM Logística, Antonio Wrobleski é um experiente especialista do ramo que vê com ceticismo a eficácia do tabelamento de fretes rodoviários. Para ele, a definição dos preços de cima para baixo deve levar dois anos para ser de fato aplicada. "Implementar tudo isso e controlar não é da noite para o dia", disse.

No mérito, Wrobleski não acredita em tabelamento. Segundo ele o Brasil tem hoje quase 1,1 milhão de transportadoras, sendo que 95% delas têm uma frota de menos de cinco caminhões. "O Brasil está dependente do pequeno caminhoneiro. E em uma economia recessiva, ele não vai fechar o frete só pelo preço da tabela", disse. Outro aspecto é que as empresas com mais de 100 caminhões, mais organizadas, trabalham com contratos que já têm preços definidos.

Segundo uma fonte ligada a uma transportadora que atende grandes clientes, caminhoneiros autônomos estão parados no pátio a espera de mudanças na tabela do frete. Uma grande empresa informou que vai pagar a tabela da ANTT, mais 25%. "Mas nesses 25% estão os impostos e o que sobra não banca a estrutura operacional e não dá para assumir os riscos, porque trabalho em rota curta", comentou.

A disputa agora está com os clientes, que se recusam a pagar o ajuste que foi dado para os autônomos. "Se coloco um ajuste de 50%, o cliente acha um absurdo e questiona a margem de lucro da transportadora. Mas ele não enxerga que o autônomo teve um aumento de 50%", indicou.

Fonte: Valor

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