O Porto de Santos está a menos de uma década de atingir seu limite para movimentação de cargas, 230 milhões de toneladas anuais. Para evitar prejuízos e novos gargalos, a ideia é expandir o cais santista, aprofundando seu canal de navegação e implantando um novo complexo fora dele, em mar aberto.

As discussões para viabilizar os dois projetos começaram a ganhar forma no Simpósio Preparatório para a Pianc/Copedec 2016, realizado em Santos, na semana passada, em uma promoção do curso de Engenharia Portuária da Universidade Católica de Santos (UniSantos), em parceria com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), o órgão regulador do setor. Como o próprio nome indica, o evento teve o objetivo de antecipar alguns dos temas que serão debatidos na Conferência de Engenharia Portuária e Costeira em Países em Desenvolvimento (Copedec), organizado pela Associação Mundial para a Infraestrutura do Transporte Aquaviário (Pianc) e que ocorrerá no próximo ano, no Rio de Janeiro.

O simpósio reuniu autoridades locais e nacionais, empresários, consultores e pesquisadores que atuam nas áreas marítima e portuária para avaliar as propostas, que ainda carecem de estudos.

Outra dificuldade apontada é a falta de compartilhamento de informações técnicas sobre o setor, o que prejudica a fluidez dos projetos. O alerta foi feito principalmente pela professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Susana Beatriz Vinzon, doutora em Engenharia Oceânica. Especialista em transporte de sedimentos (caso da lama trazida pelos rios e que se deposita no canal do Porto, reduzindo sua profundidade), ela estuda os impactos de obras de dragagem.

A acadêmica comparou a realidade de Santos com o que foi já feito em complexos portuários internacionais. Atualmente, no cais santista, empresários articulam com a União, desde o início do ano, a execução do Santos 17, projeto que visa, em prol da eficiência, aprofundar o estuário dos 15 aos 17 metros, até 2017. Tal medida permitiria a vinda de navios de maiores dimensões, capazes de transportar um maior volume de cargas por viagem, o que diminuiria o custo logístico relativo do complexo portuário e, consequentemente, aumentaria sua competitividade.

Em portos da Alemanha e da França, por exemplo, a retirada de sedimentos alterou os níveis da maré, além de ter demandado o reforço nas estruturas do cais. Entre as soluções encontradas, estava o despejo desse material em braços de mar localizados nas proximidades, sem comprometer os respectivos canais de navegação.

O reaproveitamento dos sedimentos nunca foi realizado no perímetro do complexo de Santos. “Aqui, a ordem é colocar para fora do cais e longe da navegação dos navios. Se soubermos despejar em lugares certos, dentro do Porto, vamos beneficiar gastos estruturais, além do próprio impacto ambiental”, argumenta a pesquisadora.

As regiões que deveriam receber esses materiais, diz Susana, são áreas que possam garantir o “equilíbrio natural” de um canal, como o de Santos. Isto é, vão permitir que as características naturais (dinâmica fluvial, tábua das marés e correntes), conhecidas há anos, permaneçam as mesmas, sem comprometer a segurança aquaviária.

Menor custo

Para o professor da UniSantos e da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Paolo Afredini, doutor em Engenharia Hidráulica, é possível aprofundar o estuário e ultrapassar os 15 metros atuais. A expectativa é de que o complexo receba navios de até 14 mil TEU (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés), ante os 10 mil TEU atuais.

“O problema não é chegar aos 17 metros, mas mantê-lo”, afirmou. Estudos realizados nas últimas duas décadas e apresentados por ele no simpósio preparatório, destacaram de onde os sedimentos, responsáveis pelo assoreamento no canal de navegação, são provenientes. Nesse cenário, ele sugeriu obras para barrá-los.

Alfredini constatou que parte do estuário é impactada pelos sedimentos fluviais, carregados pelas correntes internas e precipitações. As regiões da barra e da entrada do estuário sofrem influência das correntes marítimas, principalmente durante as ressacas, cada vez mais frequentes.

Barragens e molhes

Para reduzir a chegada dos sedimentos ao estuário e seu assoreamento (depósito desse material) na via marítima, o pesquisador defende duas medidas. Um deles é a construção de barragens para conter o escoamento dessas partículas. O outro é a implantação, no início do estuário, na Baía de Santos, de molhes guias-correntes, estruturas que vão afunilar e direcionar as correntes do canal, aumentando a intensidade das correntes e, assim, reduzindo o assoreamento no local.

“Além de evitar a entrada de material (sedimentos) no estuário, colocaríamos um fim ao desassoreamento da Ponta da Praia e ao assoreamento da Praia Góes, em Guarujá”, afirma o acadêmico. De acordo Alfredini, com a obra, torna-se possível manter a profundidade do canal em 17 metros com menores gastos de manutenção.

Fonte: A Tribuna online/José Claudio Pimentel










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