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CTG recorre à biotecnologia no combate ao mexilhão

Segunda maior geradora de energia privada do país, a CTG Brasil, empresa controlada pela China Three Gorges Corporation, se inspira numa biotecnologia adotada no combate aos mosquitos da dengue e malária para enfrentar um problema que afeta as hidrelétricas há quase 20 anos, mas que vem se agravando: a presença do mexilhão-dourado, espécie vinda da Ásia e sem predadores naturais que causa um prejuízo anual da ordem de R$ 400 milhões ao setor elétrico, segundo estimativas da companhia. Dona de 17 hidrelétricas no Brasil, a CTG entra neste mês numa nova fase de pesquisa e desenvolvimento (P&D), na tentativa de controlar a praga em suas usinas, em parceria com a startup de biotecnologia e engenharia genética Bio Bureau.

Em 2006, o Valor publicou uma ampla reportagem mostrando que o molusco, hospedeiro da salmonela e impróprio para o consumo humano, tinha chegado ao continente vindo nos cascos dos navios da China que aportavam na Argentina, onde foi encontrado pela primeira vez em 1991 no rio da Prata. O mexilhão afetou a primeira hidrelétrica argentina, de Yacyretá, em 2000. No ano seguinte chegou a Itaipu e, em 2002, provocou a parada de uma turbina em Porto Primavera. Na limpeza do equipamento foram retiradas quatro toneladas de conchas. Hoje já são encontrados inclusive no reservatório da hidrelétrica de Sobradinho, da Chesf, na Bahia.

Quase 15 anos depois, a CTG planeja criar mexilhões geneticamente modificados e, posteriormente, liberá-los vivos em reservatórios de hidrelétricas e outros locais infestados para produzir apenas descendentes estéreis. A expectativa é que essa solução leve à eliminação da praga ao longo do tempo, a partir da redução da taxa de reprodução do molusco e do combate a sua proliferação descontrolada.

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Inúmeros projetos já foram realizados por empresas e centro de pesquisa brasileiros para tentar combater o mexilhão. Porém, a incidência do molusco nos rios do país é crescente e, inclusive, pode avançar para a região amazônica. Interessada em encontrar uma solução, a CTG Brasil apostou no trabalho desenvolvido pela Bio Bureau que visa combater o molusco com biotecnologia.

"Ao invés de pensar em uma solução química, fomos para uma solução biotecnológica", afirma Mauro Rebelo, fundador da Bio Bureau. "Em 2013, tivemos o primeiro 'crowdfunding' [financiamento coletivo] científico bem-sucedido no Brasil. Levantamos R$ 40 mil para começar a sequenciar o genoma do mexilhão".

As duas empresas começaram a trabalhar juntas em um projeto, no âmbito do programa de P&D da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em 2017. Neste mês será assinada a terceira fase do projeto, que agora conta com outras empresas do setor como patrocinadoras. Considerando as três etapas do projeto, o valor do investimento é de aproximadamente R$ 11 milhões.

"Nesta fase, a CTG Brasil estará junto com a Bio Bureau em uma pesquisa aplicada para tentar fazer uma edição genética objetivando o colapso da população [de mexilhões-dourados] pela infertilidade", conta Carlos Nascimento, gerente de Pesquisa & Desenvolvimento da geradora.

Segundo Rebelo, a depender da evolução da pesquisa, é possível que uma solução seja disponibilizada ao mercado em cerca de dez anos. "Ainda é uma incerteza muito grande em relação a quanto tempo vai levar para essa infertilidade efetivamente controlar a população [de mexilhões] nos reservatórios".

A espécie causa prejuízos às empresas porque provoca despesas com manutenção das unidades geradoras das usinas, para a retirada do mexilhão. Somem-se a isso as perdas de receitas associadas à paralisação da operação das máquinas para o recolhimento do molusco. De acordo com levantamento feito pelo Ibama, 49 hidrelétricas, que representam 55% da capacidade instalada do parque gerador do país, registraram a ocorrência do mexilhão-dourado.

"Não há um predador natural [para o mexilhão-dourado] no Brasil, como há na Ásia", diz Rogerio Marchetto, gerente de Meio Ambiente da CTG Brasil. "Ele adere a tudo. Nas hidrelétricas, adere às tubulações, principalmente nas que fazem parte do resfriamento da água da usina. Ele pode acabar entupindo as tubulações e diminuindo a eficácia desses sistemas."

O especialista lembra que além da usina, a praga causa impactos no reservatório, afetando atividades de lazer e o uso múltiplo da água. Em 2001, por exemplo, as conchas entupiram os canos de distribuição de água e quase provocaram o colapso do abastecimento em Porto Alegre. Na época, foram usados contêineres para retirada dos moluscos.

Fonte: Valor

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