Great Ocean

Primeiro passo


Roberto Stuckert Filho/PR

 

Inauguração de fábrica de estruturas metálicas marca início de bilionário plano para construção de submarinos

 

Após três anos de obras, o governo inaugurou, em março, a unidade de fabricação de estruturas metálicas (Ufem) de Itaguaí (RJ). O empreendimento integrará a infraestrutura industrial da Marinha para construção e manutenção de submarinos convencionais e nucleares.


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O ambicioso projeto tem como objetivo atender ao Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), iniciado em 2008. A construção da Ufem, do estaleiro e da base naval em Itaguaí receberá investimentos de R$ 7,8 bilhões, com desembolsos até 2017. Juntas, as três instalações ocuparão 750 mil metros quadrados de área construída.

O comandante da Marinha, almirante de esquadra Julio Soares de Moura Neto, garante que, a partir do momento que o primeiro submarino ficar pronto, novas unidades serão entregues a cada 18 meses. A previsão da Marinha é que o primeiro submarino de propulsão convencional fique pronto em 2015, iniciando operação em meados de 2017, após testes de cais.

As seções 3 e 4 (proa e meio) do primeiro submarino serão construídas na França com participação de técnicos e engenheiros brasileiros. As seções 1 e 2 (popa e outra metade do navio) serão construídas na Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep), cujas instalações são contíguas à Ufem.

A Nuclep fabricará as seções do casco externo do submarino, que deve ser resistente à pressão no fundo do mar. Em seguida, essas seções serão transferidas para a Ufem, onde receberão as estruturas, equipamentos e componentes internos. Na terceira etapa, as seções serão deslocadas para o estaleiro, onde será executado o acabamento e a união das seções, liberando o submarino para as provas de cais e de mar.

O Prosub foi firmado em 2008 após parceria entre os governos brasileiro e francês. O programa, cujo contrato vai até 2025, estabelece a transferência de tecnologia e a formação de consórcios entre empresas dos dois países. O programa prevê a fabricação de cinco submarinos, sendo quatro convencionais do tipo Scorpène — dotados de propulsão diesel-elétrica — e um de propulsão nuclear.

O consórcio Baía de Sepetiba, formado pela Odebrecht e a francesa DCNS, construirá um estaleiro para fabricação de submarinos e uma base naval para apoio. Já a sociedade de propósito específico (SPE) Itaguaí Construções Navais (ICN) construirá no estaleiro os cinco submarinos previstos no contrato. A ICN é formada pela Odebrecht e a DCNS, tendo a Marinha brasileira como detentora de uma ação preferencial.

O primeiro submarino de propulsão nuclear brasileiro será entregue em 2023 e entrará em operação em 2025, após dois anos de testes. Engenheiros navais da Marinha participaram de cursos na França entre agosto de 2010 e maio de 2012 e iniciaram o desenvolvimento do projeto do submarino de propulsão nuclear. Eles estão trabalhando no escritório técnico conjunto da Marinha do Brasil e da francesa DCNS, instalado no Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP).

O Laboratório de Geração Núcleo-Elétrica ficará pronto em 2014. O Labgene desenvolverá a capacidade tecnológica para o projeto, construção, comissionamento, operação e manutenção de reatores nucleares do tipo PWR (Pressurized Water Reactor), que será empregado na propulsão do primeiro submarino nuclear.

O prazo de conclusão das obras do estaleiro vai até dezembro de 2014, enquanto a base naval deve ser finalizada em 2017. Mais de nove mil empregos diretos e outros 32 mil indiretos serão gerados no auge da obra. Na área de construção naval, estima-se cerca de dois mil empregos diretos e oito mil indiretos permanentes.

O governo e a Marinha destacam que o Brasil fará parte de um grupo de apenas cinco países que constrói submarinos: China, Estados Unidos, Inglaterra, Rússia e França, que é parceira da Marinha no Prosub. Durante a inauguração da Ufem, a presidenta Dilma Rousseff disse que o Prosub contribuirá para o Brasil entrar num seleto grupo de segurança do Conselho das Nações Unidas. “Temos consciência de que o mundo é muito complexo. O Brasil assumiu grande relevância nos últimos anos. Ser país pacífico não nos livra de termos indústria de defesa e ter que contribuir para a garantia de nossa soberania”, declarou.

O capitão-de-mar-e-guerra João Carlos de Oliveira Pimenta, fiscal do contrato das obras de construção do EBN, reforça que o objetivo principal de um modelo nuclear de submarino é a propulsão. Ele ressalta que o Brasil é signatário de tratados que impedem armamento nuclear. A parte nuclear do submarino será feita exclusivamente no Brasil por engenheiros brasileiros. Os torpedos, em princípio, serão de fabricação francesa.

A chamada ‘Amazônia Azul’, área total do mar territorial brasileiro, abrange 3,5 milhões de quilômetros quadrados. Aproximadamente 95% do comércio exterior e 88% de toda a produção de petróleo do país são realizados nesse território. O Brasil está pleiteando junto às Nações Unidas estender essa área até os limites de sua plataforma continental. Se a solicitação brasileira for atendida, a área marítima brasileira atingirá 4,5 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente à metade do nosso território terrestre.

O submarino nuclear brasileiro terá 100 metros de comprimento, 17 metros de altura máxima e diâmetro de 9,8 metros. O modelo descerá a uma profundidade de até 350 metros, com autonomia ilimitada, e atingirá velocidade de até 25 nós. A tripulação poderá ser de até 100 militares.

O submarino convencional será configurado com 75 metros de comprimento e 7,5 metros de diâmetro. O modelo terá autonomia de 50 dias de mar e pode atingir 300 metros de profundidade. O navio poderá acomodar até 31 militares. O capitão Pimenta explica que o submarino Scorpène brasileiro terá configuração diferente do que tem, por exemplo, o modelo construído para o Chile. As modificações no projeto visam atender aos requisitos da Marinha. Pimenta explica que o modelo de propulsão nuclear é maior que os modelos convencionais de submarino devido ao tamanho e peso do reator nuclear, além do espaço necessário para abrigar plataforma, reator e equipamentos. O submarino de propulsão nuclear atinge velocidade superior aos submarinos convencionais. O reator do modelo nuclear vaporiza água, sem necessidade de expor o periscópio (mastro) e ficar próximo à superfície.

 

O governo tem como meta garantir o maior índice de nacionalização possível dos componentes dos submarinos. De acordo com a Marinha, 95% de todo material empregado na construção da Ufem possuem conteúdo nacional. Como a indústria de defesa brasileira ainda é pouco desenvolvida, dois itens importantes do contrato firmado com a França foram a aquisição de equipamentos franceses e o desenvolvimento da indústria nacional. Outra solução será a associação de empresas brasileiras e estrangeiras. No caso das baterias, por exemplo, a Marinha aprovou uma empresa francesa que capacitará uma firma nacional.

Durante a cerimônia de inauguração, a presidenta destacou a recuperação da Nuclep, que havia perdido destaque nos últimos anos. “Foi na Nuclep que mostramos ser possível construir em Itaguaí todo esse empreendimento que é parte fundamental da indústria de defesa no país”, disse. Dilma também elogiou os programas de capacitação que serão desenvolvidos no complexo, como a escola de soldadores. “Estamos vendo que se cria um polo de referência baseado no contrato firmado com a França para: transferência de tecnologia e formação de profissionais brasileiros na construção de submarinos”, ressaltou a presidenta.

Um dos objetivos do governo é difundir a tecnologia por toda cadeia produtiva, aumentando a quantidade de componentes fabricados no Brasil. “O conteúdo nacional mostra a pujança da capacidade brasileira, do ponto de vista da empresa privada e da Marinha”, enfatizou.

A Ufem, onde serão montados os berços e as seções dos submarinos, ocupa 90 mil metros quadrados de área total. Cada parte do submarino será moldada e equipada separadamente pelas 12 oficinas que compõem o prédio principal. A unidade também é composta por um almoxarifado industrial e uma área administrativa, que inclui escritórios, vestiário, refeitório e a escola de soldagem.

A área norte da base naval contará com um hospital, um centro de descontaminação radioativo e um centro de intendência da Marinha, além de infraestrutura para acomodar oficiais e visitantes. Essa área ficará ligada ao estaleiro e à área sul da base naval por meio de um túnel de 700 metros que passará por dentro do morro que separa as duas localidades.

Pimenta, do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear (COGESN) da Marinha, explica que as seções viajarão cerca de quatro quilômetros por terra até a área norte da base de Itaguaí, onde fica o laboratório de radioproteção. O complexo radiológico permitirá o abastecimento e remoção do combustível do submarino de propulsão nuclear.

Esse trajeto foi projetado com pontes resistentes e raio de curvatura adequados para a passagem dos componentes. As vias serão suficientes para o tráfego de 200 a 300 toneladas. O diâmetro do túnel estará preparado para a chegada das seções dos modelos convencionais e nucleares. A passagem, concluída no final de 2012, possui 703 metros de comprimento, 15 metros de largura e 14 metros de altura.

A região onde ficará o complexo tende a crescer nos próximos anos, por conta da movimentação dos portos de Itaguaí, administrado pela Companhia Docas do Rio de Janeiro (RJ), e pelo porto do Sudeste, da MMX, que será integrado a uma ferrovia que receberá minério do quadrilátero ferrífero mineiro. O local é considerado uma área estratégica para a Marinha, próxima à base aérea de Santa Cruz e à BR-101. A estrutura também fica cercada por área verde, incluindo a restinga da Marambaia e a Baía de Sepetiba.

O estaleiro terá 10 cais e duas docas secas de 140 metros de extensão para manutenção e reparo dos submarinos nucleares. A estrutura terá capacidade para atracação de 10 submarinos, sendo quatro convencionais e seis de propulsão nuclear, além de um navio de socorro de submarinos, três rebocadores portuários, uma lancha de apoio ao mergulho e uma embarcação de recolhimento de torpedos.

A Marinha brasileira opera submarinos convencionais há 99 anos. A frota nacional possui cinco submarinos projetados na Alemanha, sendo um construído na Alemanha e outros quatro no Brasil, no Arsenal do Rio de Janeiro (RJ). Os submarinos Tamoio (S-31), Timbira (S-32) e Tapajó (S-33) foram incorporados à Marinha na década de 1990, enquanto o Tikuna (S-34) passou a integrar a frota em dezembro de 2005.

O submarino Tupi (S-30), construído pelo estaleiro alemão HDW na década de 1980, está próximo da aposentadoria. A vida útil de um submarino costuma variar de 30 a 35 anos.

O programa nuclear da Marinha foi criado em 1979 com o objetivo de fazer o Brasil dominar o ciclo do combustível nuclear e a desenvolver e construir uma planta nuclear de geração de energia elétrica, incluindo a fabricação do reator nuclear. De acordo com a Marinha, o domínio do ciclo do combustível já foi atingido, restando ainda a segunda parte: a planta nuclear. Essa etapa será concluída em 2016.

 

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