Petrobras já planeja novo duto para gás na Amazônia

O gás natural de Urucu, província petrolífera em plena selva Amazônica, já jorra em Manaus desde novembro, depois de percorrer 660 km no gasoduto Urucu-Coari-Manaus. Até setembro, passará a ser usado para gerar energia elétrica, substituindo os óleos poluentes das termelétricas. Em busca de mais gás na Amazônia, a Petrobras prepara-se para um novo desafio: explorar a reserva de Juruá, a 170 km de Urucu.
Outro gasoduto será necessário para levar o gás de Juruá até as zonas de consumo. Como na obra do Urucu-Manaus, terá de cruzar rios, igarapés, morros e mata virgem. O trajeto previsto tem mais de 120 km entre o campo de Araracanga/Juruá, que fica no município de Carauari, e a base de processamento de óleo e gás do Polo Arara, em Urucu. Em dezembro, a companhia obteve a licença ambiental; agora, começa a ir ao mercado para fazer as primeiras licitações de fornecimentos de serviços e equipamentos.
As lições tiradas na montagem do duto Urucu-Manaus serão de grande proveito no Juruá-Urucu para vencer obstáculos de uma obra que é sensível pelo fato de se localizar numa floresta tropical que é símbolo mundial, explica Luiz Ferradans Mata, gerente-geral na Petrobras da Unidade de Negócios de Exploração e Produção da Amazônia. Ele diz que, preliminarmente, as características da região apontam para uma obra menos complexa. Tem extensão menor e a topografia não mostra tantos rios pela frente.
Ferradans evita dar mais detalhes de engenharia, pois se trata de uma empreitada a cargo da diretoria de Gás e Energia da estatal. Pontua que das lições aprendidas é possível elaborar um estudo prévio mais detalhado, considerando períodos de cheias e vazantes da região aliado a novas soluções tecnológicas. Procurada pelo Valor durante toda a semana, a diretoria de Gás e Energia não dispôs nenhum executivo para dar informações sobre os dois gasodutos.
Os estudos preliminares, segundo o gerente-geral, apontam potencial de extração expressivo em Juruá. Os quatro poços iniciais de exploração na década de 70 mostraram capacidade para 500 mil metros cúbicos cada um. "Pode até ser mais alto", afirma, mas lembra que depende das condições de aproveitamento nas instalações do Polo Arara.
Uma sonda remota de prospecção será deslocada de Urucu para lá. Se as estruturas dos poços estiverem em boas condições de aproveitamento, a Petrobras poderá elevar, com esse projeto, que entrou no planejamento estratégico da companhia em 2007, em pelo menos 2 milhões de metros cúbicos sua produção de gás na região.
A reserva Juruá não se trata de uma descoberta nova. É de 1978 e leva o nome do rio que passa na redondeza do campo. Localiza-se também na bacia do rio Solimões, como Urucu, encontrada oito anos depois. Mas a novata mostrou na época ser mais viável de ser primeiramente explorada. Pelo seu porte, parece ser isso mesmo: dali são extraídos 10,5 milhões de metros cúbicos diários. Sem o gasoduto até Manaus, porém, o gás era (e grande parte ainda o é) mandado de volta por reinjeção ao local de origem - 2,5 mil metros abaixo da terra.
Comparado aos 24 milhões de metros cúbicos médios por dia de gás que o Brasil trouxe em 2009 dos campos da Bolívia, Urucu e Juruá formam uma fonte de produção importante. E vão suprir a demanda da Amazônia, que está muito distante de outras fontes, como as bacias de Campos e Santos. Ferradans informa que o investimento no projeto Juruá - extração, tratamento do gás e gasoduto - começa a ser definido e depende da análise de vários fatores. "Talvez seja necessária a construção de uma Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) lá, como as de Urucu".
Tirar o gás no meio da floresta não é uma tarefa simples. Mais complicado ainda é transportá-lo até áreas distantes de consumo. O gasoduto Urucu-Manaus tornou-se um sonho desde que petróleo e gás jorraram em Urucu em 1988. No início, para levar o óleo até Manaus, foram usadas pequenas barcaças navegando no sinuoso e estreito rio Urucu. A partir de 1997, passou a ser escoado por um oleoduto estendido até as margens do Solimões, em Coari, onde se instalou uma base de armazenagem e despacho. Além do óleo, também GLP (gás de cozinha), que passou a suprir o Norte e Nordeste. Daí, óleo e GLP seguiam em navios petroleiros e butaneiros para Manaus. O destino do gás natural só virou realidade em 2006, após muita discussão sobre o impacto ambiental e sobre dezenas de comunidades ao longo da obra do gasoduto.
"Foi um marco da engenharia de construção da Petrobras para poder escoar o óleo, o gás e o GLP da selva, na área de maior diversidade ambiental do planeta", diz Ferradans. Para ele, operar num "santuário ecológico" fez com que a estatal enfrentasse desafios comparáveis à exploração de óleo do mar, em águas profundas.
A obra, dividida em três trechos, enfrentou grandes obstáculos de engenharia pela frente. Segundo relatos, as maiores dificuldades ocorreram na travessia dos rios Solimões e Negro e de um dos lagos da região, o Manacapuru, entre Coari a Manaus. Nesse trecho de quase 400 km, que mobilizou 8,9 mil trabalhadores, o gasoduto passou por cima e por baixo de terra firme e movediça. Para cruzar rios, igarapés e lagos foram feitos furos de até 20 metros abaixo do leito das águas. Tubo a tubo, de 12 metros de comprimento e 20 polegadas de diâmetro, foi soldado um ao outro, em aço de alta resistência e protegidos contra corrosão.
Uma balsa especial, com 250 tripulantes e dotada de um guindaste capaz de erguer mil toneladas, foi usada no rio Negro para estender tubulações. Nesse ponto, a obra só parou durante o Festival de Parintins que ocorre no fim de junho, quando é grande o movimento de barcos no rio. Também recorreu-se a helicópteros para transportar tubos, da mesma forma que se faz com toras de madeira em florestas do Canadá.
Para abrir o traçado na floresta, que era seguido pelos tratores, experientes mateiros da região foram recrutados. Eles marcavam com fitas as árvores que deviam ser preservadas, como castanheiras e seringueiras. Muitas vezes cruzavam com venenosas surucucus e os temidos queixadas - porcos-do-mato que avançam em correria e não poupam nada nem ninguém pela frente. "É subir na árvore e deixar passar", relatou um mateiro.(Fonte: Valor Econômico/ Ivo Ribeiro e Cláudia Schuffner, de Urucu (Amazonas)

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