Offshore em ascensão

Encomendas do setor incentivam a implantação de novos estaleiros especializados na construção de plataformas e navios-sonda


A construção de plataformas de petróleo no Brasil contribuiu para a retomada do setor naval. Compradas no exterior na década de 90, as plataformas passaram a ser construídas no Brasil a partir de 2003. A P-51, primeira plataforma integralmente construída no país, saiu do estaleiro BrasFels, em Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro, com mais de 75% de conteúdo local. Desde então, a exigência de índice mínimo nacional passou a ser adotada em todas as licitações realizadas pela Petrobras, abrindo possibilidade de geração de emprego e renda.


Das dez plataformas previstas no Plano de Negócios da Petrobras para operar até 2014, duas foram integralmente construídas no Brasil: o FPSO P-61, no Brasfels; e a semissubmersível P-55, cujo casco foi construído no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Pernambuco, a integração dos módulos no Estaleiro Rio Grande, no estado do Rio Grande do Sul, e o acoplamento do deque superior (mating) pela Quip, instalada no mesmo estado. Outras sete plataformas tiveram seus cascos convertidos em estaleiros internacionais, mas com integração de módulos realizada no Brasil: FPSOs P-58 e P-63 na Quip, FPSO P-62 que, além da integração, teve a fabricação dos módulos realizadas pela UTC e pela Quip; FPSOs Cidade de São Paulo, Cidade de Mangaratiba e Cidade de Paraty no Brasfels; e a FPSO Cidade de Ilhabela, cujos módulos estão sendo fabricados e integrados no Estaleiro Brasa, instalado no Rio de Janeiro. Apenas uma plataforma foi totalmente construída em estaleiros internacionais. Foi o caso da FPSO Cidade de Itajaí, construída no estaleiro Jurong, em Singapura.
No Plano de Negócios da Petrobras estão previstas outras 15 plataformas que entrarão em operação até 2015 e mais 13 até 2020, somando 28 novas unidades. Do total, 12 foram contratadas para construção em estaleiros brasileiros. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), ao que tudo indica, as 16 plataformas restantes serão contratadas em plantas internacionais, com integração de módulos no Brasil para atender às regras do conteúdo local. “O Sinaval ainda busca o diálogo para construção local de algumas dessas 16 novas plataformas”, diz o presidente do sindicato, Ariovaldo Rocha.
A construção offshore tem ajudado a alavancar o setor. O presidente da Abenav, Augusto Mendonça, acredita em um crescimento na construção de navios e de barcos de apoio, mas o segmento offshore é o que mais deve crescer. “A indústria de construção offshore no Brasil é a maior carteira em execução no mundo. Isso é uma oportunidade enorme para quem está estabelecido aqui. Existe uma série de estaleiros para iniciar operação e isso vai ser significativo. O que eu sinto das empresas é que elas estão preparadas para aproveitar esse momento.  Acho que o Brasil está seguindo o caminho certo”, opina.
Entre os estaleiros em implantação especializados em embarcações offshore estão o Jurong Aracruz (EJA), que está sendo instalado no Espírito Santo, o Enseada do Paraguaçu (EEP), na Bahia, o UCN Açu, no Rio de Janeiro, e o EBR, no Rio Grande do Sul. Segundo as estimativas, o primeiro a se tornar operacional deve ser o estaleiro capixaba, com previsão para o final deste ano. A conclusão acontecerá em 2015.
“Estamos em fase final de terraplenagem e construção do quebra-mar, cais e píer sul. A dragagem está em fase final de contratação. O guindaste flutuante está em fabricação no Japão e ficará pronto no início de 2014. Outras etapas também já serão iniciadas em breve, como fundações, prédio administrativo, montagem de estruturas metálicas para a oficina de cascos e de corte de chapas”, explica a diretora institucional do EJA, Luciana Sandri. Ela adianta que a empresa também está em processo de obtenção da certificação ISO9001, voltada para qualidade do processo produtivo, da ISO14001 para gestão ambiental e da OHSAS18001 para as questões de segurança.
Com investimento previsto de R$ 1 bilhão, proveniente de capital próprio da companhia, o estaleiro contará com um dique seco, que terá 385 metros de extensão, 94 metros de largura e 11 metros de profundidade. O cais sul e o cais norte terão, respectivamente, 805 metros e 150 metros. A capacidade de processamento mensal de aço é de quatro mil toneladas. Para Luciana, o mercado brasileiro está entre os mais promissores para os próximos 20 anos. “Temos ótimas expectativas. O Brasil teve uma mudança de horizonte, revitalizando sua indústria naval com diversos estaleiros em construção para atender às metas de produção e para estar prestes a se tornar o maior mercado offshore do mundo”, opina.
Antes mesmo de começar a operar, o Jurong Aracruz já tem encomendas para a construção de sete sondas para a Sete Brasil. A primeira unidade está prevista para ser entregue em junho de 2015 e, de acordo com Luciana, o andamento da obra está à frente do planejado. A última sonda deve ser concluída em 2019. Para não atrasar o cronograma, a primeira delas começou a ser construída em Singapura, no estaleiro da companhia. “O Jurong fará partes do casco da primeira sonda em Singapura e a montagem final será feita no Brasil, atendendo aos 55% de conteúdo local exigido. Além disso, ocorrerá a transferência de tecnologia gradual”, diz Luciana. O conteúdo local das sete unidades vai variar entre 55% e 65%.
A empresa criou um plano de transferência de tecnologia, no qual estudantes do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) estão sendo beneficiados. Através do Programa de Cooperação Educacional entre Ifes e o Ngee Ann Polytechnic de Singapura, alunos estão sendo qualificados para o trabalho na indústria naval. Desde janeiro deste ano, 23 estudantes do instituto estão realizando uma pós-graduação em Tecnologia Naval e estágio no estaleiro da Jurong para voltar como multiplicadores. A duração das atividades é de um ano e o investimento do programa é de US$ 2 milhões.
— O programa tem como objetivo preparar a mão de obra especializada na indústria naval, treinada nos padrões internacionais e transferir tecnologia diretamente, além de proporcionar uma imersão na cultura e práticas da empresa — afirma Luciana, acrescentando que já está aberta a seleção para a próxima turma que irá para Singapura no início de 2014. “Poderão participar da seleção os estudantes de mecânica, automação, eletrotécnica e civil do IFES.”
Também estão sendo realizados diversos cursos de qualificação profissional. No ano passado foram treinados 680 trabalhadores e, para este ano, está previsto o treinamento de mil pessoas. Durante a construção do estaleiro, serão gerados 2,5 mil empregos, enquanto que na operação esse número deve chegar a seis mil. Atualmente, 69% da mão de obra contratada do EJA são locais. O estaleiro também tem desenvolvido um programa de capacitação de fornecedores. Atualmente cerca de 60% deles fornecem produtos e serviços para o estaleiro.
No Enseada do Paraguaçu (EEP), o processo de transferência tecnológica em construção naval com a Kawasaki Heavy Industries Ltd. (KHI) também já começou. Desde setembro do ano passado, o estaleiro já conta com a assistência de cinco engenheiros baseados no EEP Rio de Janeiro. No estado fluminense, a unidade opera no Estaleiro Inhaúma, arrendado pela Petrobras e localizado no bairro do Caju. A empresa já recebeu da KHI todo o “acervo técnico”, formado por planos, procedimentos, manuais de operação, instruções e padrões de construção naval. Além disso, também recebeu os pacotes de softwares de gestão desenvolvidos pela KHI para gerenciar e controlar as atividades de engenharia, suprimento, logística e construção naval do EEP. De acordo com o estaleiro, os softwares já foram implantados e estão na fase de “tropicalização” e “customização”.
Ao longo desse ano, 100 engenheiros, técnicos e operadores brasileiros também passarão cerca de quatro meses no Japão, em treinamentos práticos e teóricos. Cada integrante em formação terá um programa específico por função com um acompanhamento do desempenho individual, tanto do ponto de vista técnico, quanto do disciplinar e do comportamental. O treinamento será em japonês e tradutores auxiliarão o grupo de brasileiros, que é formado por profissionais com ampla experiência no setor naval.
Ao voltar ao Brasil, os integrantes treinados iniciarão a multiplicação do conhecimento com o apoio dos profissionais japoneses. A disseminação da tecnologia será facilitada porque os equipamentos adquiridos pelo EEP, sobretudo para as oficinas de processamento de aço — manuseio, tratamento, corte, soldagem, montagem de painéis e blocos — são os mesmos em que serão treinados no Japão. Neste pacote de transferência de tecnologia, diz o estaleiro, está incluída a assistência técnica de engenheiros e técnicos da KHI. Os profissionais japoneses virão ao Brasil para dar suporte à operação do EEP até meados de 2016. 
O projeto do EEP foi originado em 2010 por meio da associação da UTC Participações com a Odebrecht Participações e Investimentos e OAS Investimentos. No ano passado, foi constituída a EEP Participações que, além das acionistas originais, agregou a participação da KHI. No final de julho, já haviam sido concluídos 25% das obras de implantação do estaleiro. Entre as fases já finalizadas estão a dragagem, a terraplanagem e as instalações provisórias, como refeitório e canteiro de obras.
“Estamos hoje em plena atividade na execução das estacas do cais, na construção do dique seco e das paredes diafragma. Também estamos bastante avançados com a fundação do prédio de fabricação dos blocos navais, já estamos recebendo toda a estrutura para montar a estrutura do prédio, que terá 75 mil metros quadrados”, declara o diretor de Implantação do EEP, Silvio Luiz Zen, acrescentando que cerca de 60% dos equipamentos a serem adquiridos para a construção do estaleiro já estão comprados e em processo de fabricação. Entre eles estão o guindaste Goliath, com capacidade de içamento de 1,8 mil toneladas, além da dock gate. “Em outubro já começamos a receber as máquinas de marcação e corte de chapas e o transportador hidráulico”, afirma Zen.
O início de operação do estaleiro, que terá capacidade de processamento anual de 36 mil toneladas de aço, está previsto para março de 2015. Com investimentos de R$ 2,6 bilhões, o empreendimento receberá financiamento do Fundo da Marinha Mercante por meio do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Mas até então o estaleiro está sendo construído com recursos próprios. O empreendimento terá uma área ocupada de 600 mil metros quadrados em uma área total de um milhão de metros quadrados. A expectativa para os próximos dias é que seja emitida a licença de instalação do estaleiro.
Atualmente há entre 1,8 mil e dois mil trabalhadores envolvidos na construção do EEP. Por enquanto, 44% da mão de obra são locais, principalmente dos municípios de Maragogipe e Salinas. Para aumentar esse contingente, o consórcio Estaleiro do Paraguaçu formou uma parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome para a formação de mão de obra local tanto para a fase de construção como para a etapa de operação do estaleiro. Denominado Acreditar, o programa é voltado para homens e mulheres, com mais de 18 anos que queiram aprender uma profissão e trabalhar na construção civil. Iniciado há mais de um ano, o programa busca pessoal para trabalhar na construção do estaleiro. Segundo Zen, 133 profissionais já foram certificados e a previsão é que outros 225 sejam formados nesse programa.
Assim como acontece no estaleiro Jurong, o EEP também recebeu da Sete Brasil a encomenda de sondas de exploração de petróleo antes de ser concluído. Para a companhia, não há dificuldades na construção dos navios concomitantemente às obras de construção do estaleiro. Segundo Zen, os projetos de construção do estaleiro e da produção das sondas foram concebidos para operar de forma sincronizada. Assim, cada fase de construção do estaleiro é concluída aproximadamente dois meses antes que as instalações sejam demandadas para a construção das sondas, permitindo que as obras sejam executadas simultaneamente. “Trabalhamos todo o planejamento de construção do estaleiro visando atender ao cronograma das sondas. Então já temos tudo faseado de maneira que seja possível executar a atividade de construção de sondas em paralelo à do estaleiro”, destaca o executivo. O corte de chapas de aço para a primeira sonda está previsto para março de 2014.
O índice de conteúdo local das sondas construídas no EEP se iniciará em 55% e alcançará a marca de 65% nas últimas unidades. Dentre as exigências do projeto estão o conteúdo local iniciando em 55%, sonda projetada para três mil metros de lamina d’água e sistema DP3 de posicionamento dinâmico.
Outro estaleiro em construção, especializado em embarcações offshore, é o UCN Açu. A companhia chegou a negociar a construção de sondas para a Sete Brasil, mas o trâmite não foi concluído. E os ventos não estão favoráveis ao grupo X. No último dia 17 de maio, a OSX anunciou um novo plano de negócios com fases da obra de construção do estaleiro. Segundo a companhia, a atualização do seu plano de negócios leva em conta a conjuntura mercadológica para as unidades de negócios da empresa, a reconfiguração das necessidades de curto e médio prazo da OGX, cliente da OSX, e a perspectiva econômico-financeira do modelo de negócios original da empresa.   
A atual demanda do estaleiro compõe-se da construção de um navio PLSV para a Sapura Navegação Marítima e da integração de dois FPSOs para a Petrobras. De acordo com a OSX Construção Naval, a construção da fase 1 do estaleiro está sendo finalizada e é composta por áreas e facilidades necessárias ao cumprimento dos contratos da atual carteira do estaleiro. Segundo o diretor de Construção Naval da OSX, Danilo Baptista, esta fase já capacita o estaleiro a atuar como um dos principais canteiros offshore do país, oferecendo 800 metros de cais e capacidade para montagem de dezenas de módulos e de integração simultânea de dois FPSOs de grande porte.
“Lamentamos que a conjuntura existente requeira, neste momento, a alteração de projetos pessoais e empresariais. Dada a relevância estratégica de uma infraestrutura dessa qualidade para o nosso país, certamente temos todos os motivos para acreditar na futura retomada da construção das próximas fases do estaleiro”, diz o executivo. A OSX conta atualmente com cerca de 160 funcionários próprios distribuídos entre construção e administração do estaleiro do Açu, além de projetos da carteira de encomendas do estaleiro.
Para cumprir o prazo contratado com a Sapura, a OSX iniciou a construção de blocos e a edificação do casco do PLSV em outros estaleiros. Estes módulos serão transportados para a UCN no início de 2014 para integração final, comissionamento e testes. A entrega deste equipamento está prevista para 2014. Já para os FPSOs replicantes (P-67 e P-70), o contrato entre a Petrobras e a Sociedade de Propósito Específico (SPE) entre a OSX e a Mendes Junior prevê a construção de alguns módulos e a integração dos FPSOs na UCN Açu. A previsão é que a entrega do FPSO P-67 seja feita em 2016 e do FPSO P-70, em 2017.
A OSX destaca ainda que a retomada de futuras fases de construção do estaleiro deve ser compatível com a confirmação de novas perspectivas em relação à demanda de clientes e ao correspondente equacionamento econômico-financeiro. “A expectativa da OSX é de que as medidas ora adotadas preservam o objetivo de concluir a construção do estaleiro no longo prazo, mediante novas demandas da clientela e investimentos de capital correlatos”, conclui Baptista.
O Rio Grande do Sul também receberá um estaleiro especializado em construção offshore: o Estaleiros do Brasil (EBR). A planta conta com uma área de 1,5 milhão de metros quadrados e capacidade projetada de processamento de aço de 110 mil toneladas por ano. A construção do estaleiro será dividida em três fases. A primeira delas, que levaria de oito a dez meses, prevê a fabricação de módulos de plataformas e deve ser concluída em dezembro deste ano. Com duração de 12 a 14 meses, a segunda etapa teria como objetivo a integração entre módulos e cascos e será finalizada em setembro de 2014. A companhia destaca que, que na última fase, que levará aproximadamente 24 meses, será feita a construção das plataformas. O término desta etapa está previsto para setembro de 2015.
O EBR já tem a encomenda de construção e integração de 19 módulos da P-74. Segundo o presidente do EBR, Alberto Padilla, a previsão é que a obra esteja concluída até outubro de 2015. “O percentual de conteúdo local deverá atingir o mínimo de 65%”, destaca o executivo. Atualmente o estaleiro está em fase de terraplanagem, que deve ser finalizada neste mês de agosto.
O investimento na construção do EBR é estimado em R$ 1,2 bilhão. Deste montante, cerca de 80% serão provenientes de recursos do Fundo da Marinha Mercante. A companhia recebeu a prioridade do FMM em novembro de 2011. Mas como a prioridade caducou, foi preciso aprová-la novamente. De acordo com Padilla, a solicitação ao FMM já foi realizada no ano passado e está na pauta da próxima reunião do conselho. “A solicitação para as duas primeiras etapas é no valor de R$ 617 milhões com 20% de equity”, revela o presidente.
Controlada pela Setal Óleo e Gás (SOG), a EBR está realizando treinamento com a mão de obra de São José do Norte e do município de Rio Grande a fim de preparar o pessoal que trabalhará na implantação do estaleiro. Segundo Padilla, os trabalhadores estão sendo contratados pelos subcontratados da companhia com prioridade de recrutar pessoas que moram no entorno do estaleiro. A estimativa é que sejam gerados em torno de 500 postos na implantação e três mil na operação e na produção.

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