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O jeito de fazer negócios dos donos da Avianca

"Crônica de uma morte anunciada" é como um executivo do mercado financeiro se refere à crise da companhia aérea Avianca Brasil, que está em recuperação judicial desde dezembro. Poderia ser também o enredo de outros negócios no Brasil da família Efromovich, conhecida por longas batalhas judiciais travadas nos últimos anos. Germán e José, dois bolivianos filhos de imigrantes judeus, criaram um império desde a década de 90, mas aos poucos viram seus negócios no Brasil se desfazerem.

Obstinados e duros de negociar, os irmãos Efromovich começaram sua trajetória com uma empresa de serviços para o setor de óleo e gás e expandiram para estaleiros e aviação. No setor aéreo, são donos da segunda maior companhia da América Latina, a Avianca Holdings - que não tem participação na Avianca Brasil. A companhia nacional é controlada por José, o irmão mais novo, e paga royalties para a holding para usar a marca Avianca.

Com dificuldade para pagar o aluguel das aeronaves que utiliza, a Avianca Brasil briga na Justiça para não perder a posse dos aviões. Amanhã, os desembargadores da 8.ª Camara de Direito Privado devem julgar os agravos de instrumento dos arrendadores que querem retomar suas aeronaves. Se o resultado for negativo, porém, a Avianca poderá recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e protelar ainda mais a briga judicial.

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Catálogo da Indústria Marítima

 

Há cerca de três anos, José Efromovich vem conversando informalmente com potenciais investidores para vender parte da companhia, que precisava de um aporte para financiar a expansão dos últimos anos e sobreviver às pressões do setor, como demanda fraca e dólar em patamar elevado.

Segundo uma fonte, no entanto, Efromovich enfrentava dificuldade para encontrar alguém disposto a colocar dinheiro na empresa, dada a falta de clareza nas informações disponíveis. Com a corda no pescoço, o empresário tenta agora fechar um aporte de US$ 75 milhões (R$ 290 milhões) com a gestora americana Elliott Management, do bilionário americano Paul Singer.

Credor dos Efromovich em outros negócios, o Elliott é conhecido por ser um fundo abutre - que investe em empresas em dificuldades. Foi um fundo de Singer que adquiriu a dívida da Argentina, em 2002, após o país ter dado calote. Conseguiu, 14 anos depois, receber até 15 vezes o valor investido inicialmente.

Até a semana passada, porém, os Efromovich não tinham conseguido fechar nenhum aporte com o Elliott para aliviar a situação financeira da Avianca Brasil, apesar das longas conversas que travam diretamente com o investidor.

Centralizadores. Considerado simpático e afável, José costuma prender a atenção de todos a seu redor e se entrosar facilmente com desconhecidos.

Germán é mais sisudo e não se esforça para evitar uma disputa na Justiça. Um conhecido o descreve como visionário e alguém que tem a impressão de nada ser impossível. Outro amigo destaca que Germán é um homem simples, de não "ficar agradando muito", e duro nas negociações: "Não é diferente de outros empresários. Olha no detalhe, mas não prejudica ninguém".

Bem relacionados no Brasil e no exterior, ambos têm fama de espartanos. Germán não costuma usar a classe executiva quando viaja em empresas concorrentes. José, morando no Rio mas viajando a São Paulo semanalmente a trabalho, trazia as roupas para lavar na capital paulista, onde o preço era menor. Amigos contam que Germán se recusou a dar um carro com ar condicionado para a filha em pleno verão carioca. Dizia que o primeiro carro tinha de ser popular, sem regalias. Ambos são centralizadores, do tipo que conta até o número de papel higiênico e caneta, afirma um amigo.

O calote nas arrendadoras de avião não é o primeiro dos Efromovich. Em 2012, o grupo Synergy, de propriedade dos irmãos, comprou a Aliança Eletroquímica (AEQ), uma empresa do Paraná de produtos químicos e defesa, por R$ 20 milhões. Apenas as quatro primeiras parcelas, de um total de 24, foram pagas, apurou o Estado com fontes que participaram da negociação. Só houve solução quando o fundo estrangeiro Etrum decidiu adquirir a AEQ, pagando o valor devido pelo Synergy aos vendedores.

Também houve calotes no setor naval. Donos dos estaleiros Mauá e Eisa (que pediram recuperação judicial), os irmãos não se preocuparam em dar satisfações aos credores no auge da crise do setor - quando outras empresas tentavam renegociar suas dívidas -, afirmou um fornecedor.

Petróleo. Foi no setor de óleo e gás que os negócios dos Efromovich ganharam impulso nos anos 90, em uma trajetória conturbada. Germán começou a se aproximar da Petrobrás durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, como representante de multinacionais, como a Diamond Offshore, de perfuração. Em seguida, fez uma parceria com a sueca Stena, com quem passou a dominar 30% do mercado de barcos de apoio. Logo criou uma companhia para explorar a área de perfuração, a Marítima. O rápido crescimento no setor levantou suspeitas e criou desafetos.

Havia no mercado acusações de que Germán tinha proximidade com executivos da Petrobrás e, por isso, era beneficiado nas licitações - o que, nunca foi provado, mesmo com as delações na Lava Jato. O relacionamento do empresário com a estatal, no entanto, afundou junto com a P-36. Para comprar a plataforma, Germán montou um consórcio com vários bancos e foi atrás de opções no mercado.

Encontrou na Europa uma plataforma construída para operar no Mar do Norte numa profundidade de 300 metros. Para funcionar no Brasil, onde a profundidade era de 1 mil metros, teve de adaptá-la num estaleiro no Canadá, conta um profissional que trabalhou com Germán na época. O acidente, em 2001, azedou a relação com a Petrobrás, que já vinha dificultando a vida do empresário para participar de novas licitações por causa de atrasos na entrega de outras plataformas.

Após a P-36 afundar, Germán argumentava que tinha direito de receber parte da indenização do seguro. O resultado foi uma longa batalha judicial em tribunais internacionais. Em alguns deles, o empresário foi condenado a pagar alguns milhões à Petrobrás, mas recorreu das decisões. Sem ambiente para continuar no mercado, o empresário vendeu sua empresa no setor de óleo e gás.

Aviação. Mais ou menos nessa época, os Efromovich decidiram explorar o ramo de aviação quase por acaso. Após receberem duas aeronaves como pagamento de serviços prestados na área de petróleo, decidiram abrir uma empresa de táxi aéreo. O negócio se expandiu e se transformou na Ocean Air (atual Avianca Brasil). Em 2004, eles compraram a Avianca Colômbia, que estava em recuperação judicial. Ao contrário da empresa brasileira, a colombiana não vive uma crise profunda.

No Brasil, a companhia passa por momentos decisivos. Mesmo que haja, amanhã, uma decisão favorável aos arrendadores, os donos das aeronaves usadas pela Avianca dizem não querer mais negócio com a família - o que pode dificultar ainda mais a recuperação da empresa. Procurados, os irmãos Efromovich e a Avianca Brasil não quiseram falar com a reportagem.

Fonte: Terra

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