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Marinha do Brasil deve se inspirar na China por desenvolvimento com novas corvetas, diz analista

A liberação dada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para assinatura do contrato que dará ao Brasil quatro novas corvetas para esquadra da Marinha pode não apenas prover modernas embarcações, mas ajudar na reconstrução da indústria naval ao estilo chinês, de acordo com um especialista ouvido pela Sputnik Brasil.

Anunciada no dia 2 de abril deste ano no Rio de Janeiro, durante a 12ª LAAD Defence & Security – a mais importante feira de defesa e segurança da América Latina –, a parceria entre a Marinha e o consórcio Águas Azuis, formado pela alemã Thyssenkrupp Marine Systems, pela brasileira Embraer Defesa & Segurança, e pela Atech, subsidiária do Grupo Embraer, estava sob questionamento na Justiça.

Sob alegação de irregularidades na licitação, o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Pernambuco queria que o contrato não fosse assinado, porém o TCU arquivou a denúncia no fim de novembro. A tendência é que o acordo para construção de quatro navios de defesa do Programa CCT (Corvetas Classe Tamandaré), cujos custos são estimados em R$ 6,4 bilhões, seja assinado no começo de 2020.

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Ouvido pela Sputnik Brasil, o pesquisador e professor de Relações Internacionais da Escola de Guerra Naval, Ricardo Cabral, explicou que corvetas são navios de uma tonelagem entre 2 mil e 2,8 mil toneladas e que se destinam para o patrulhamento, para acompanhamento de comboios e, em alguns casos, para o combate com propósitos bélicos. O que as diferencia das fragatas – estes navios com maior tonelagem –, ele prosseguiu, hoje é pequena.

"[As corvetas] são navios menores. As fragatas são navios em torno de 3 mil, 3,5 mil toneladas em diante [...] e elas são muito dedicadas a um propósito de guerra, seja guerras de submarino, às vezes as de maior capacidade podem fazer guerra antiaérea, podem até atacar alvos em terra e isso depende da capacidade e está diretamente ligada à tonelagem que elas deslocam", comparou Cabral.

Sobre as novas aquisições da Marinha brasileira, que deverão ser entregues entre 2024 e 2028, o especialista destacou que elas podem ser consideradas um começo para uma demanda antiga da Marinha brasileira, responsável por patrulhar nada menos do que 4,5 milhões de quilômetros quadrados da chamada Amazônia Azul, que corresponde às águas jurisdicionais brasileiras.

"O grupo que ganhou, o Thyssen, esse fez uma configuração específica para Marinha brasileira, e ela vai ter uma tonelagem semelhante às fragatas Niterói que nós estamos começando um processo de colocá-las na reserva. Então você terá essas quatro novas corvetas, elas serão menores, mas vão deslocar a mesma tonelagem, serão mais bem armadas, mais bem equipadas em termos de sensores, se prestarão a várias tarefas e, principalmente, terão a capacidade de atravessar o Atlântico, o nosso oceano aqui não é tão tranquilo quanto as pessoas falam, então precisamos de navios de melhor qualidade", avaliou.

Cabral ainda destacou que as novas corvetas brasileiras – que serão construídas no estaleiro Oceana, em Itajaí (SC), e terão 31,6% de conteúdo nacional para o primeiro navio, e 41% para as outras três embarcações, garantindo assim transferência de tecnologias e capacitação de mão de obra nacional – terão múltiplas funcionalidades por serem modulares. Ou seja, a Marinha poderá equipá-las de maneira diferente, segundo as necessidades do Brasil.

Seguindo o rastro chinês
O professor de Relações Internacionais da Escola de Guerra Naval relembrou que, nos anos 1970 e 1980, a indústria naval brasileira construía suas próprias embarcações, mas o conhecimento e capacidades acabaram perdidas nos anos 1990. A culpa por isso repousa, na opinião do analista ouvido pela Sputnik Brasil, nos governos de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), que teria desmontado a indústria bélica nacional.

"Tínhamos uma indústria pujante que foi destruída nos anos 1990 pelo governo FHC, acabou com a nossa indústria bélica, ninguém sabe bem o motivo, e depois nós vivemos uma expectativa de retomada. Tivemos discursos muito imbuídos durante o governo Lula, muitos dos quais não saíram do papel, e só começaram lentamente a ser implementados nos governos Dilma e a expectativa é que agora, no governo Bolsonaro, até pela sua proximidade com os militares, que isso seja retomado plenamente", opinou.

O sucesso dos esforços no projeto das corvetas é a oportunidade de uma retomada da indústria naval brasileira, que também está engajada em outras frentes, como a construção de cinco submarinos (um deles de propulsão nuclear) do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub). E o principal parceiro comercial do Brasil, a China, pode servir de exemplo.

"Nós vamos readquirir esse know-how [para] construir navios maiores e mais sofisticados. Acredito que em uma primeira encomenda de quatro, depois uma nova encomenda de duas e mais duas, e aí você parte para fragatas maiores, mais bem equipadas, inserindo-se nessa lógica. Isso hoje é muito interessante: Marinhas tem feito isso com muito sucesso. A que eu estou me referindo? Ao projeto chinês. Os chineses têm uma frota de fragatas que começou com aquelas mais leves, de 3,1 mil, 3,5 mil toneladas, até o destroier de 8,5 mil toneladas. Eles fizeram o caminho desde a construção de navios mais simples e foram sofisticando os seus navios, e é uma coisa que o Brasil pode fazer em parceria com a Alemanha", explicou.

"Até porque esse projeto [futuro], de uma fragata que seria um Meko A-100, mas na verdade ela tem a capacidade de uma fragata Meko A-200, nós poderíamos partir para uma fragata F124, da classe Sachsen e que é de 5,7 mil toneladas, e depois, posteriormente, partirmos para uma fragata F125 da classe Baden-Württember de 7,2 mil toneladas. Ou seja, você vai acrescentando tonelagem, tamanho, sofisticação de equipamentos, capacidade, mantendo essa configuração de múltiplos propósitos, que é mais interessante para nós aperfeiçoarmos a nossa tecnologia e, principalmente, você restabelecer a posição de fabricante de material bélico", acrescentou o especialista.

Segundo o analista, o Brasil perdeu "a capacidade de dissuasão há muito tempo" e, desta forma, os investimentos na defesa do país tornou-se uma necessidade estratégica e urgente. Diante das possíveis críticas aos aumentos de gastos do Produto Interno Bruto (PIB) – hoje na ordem de 1,4% - para reforças os militares brasileiros, Cabral relembrou os benefícios colhidos, por exemplo, pela Embraer.

"Nós somos hoje a oitava economia do mundo e, devido a essa desvalorização do dólar, podemos ser a nona. Mas estamos entre as 10 maiores e não podemos ter uma Marinha, umas Forças Armadas de maneira geral de uma condição tão inferior quanto nós temos. Já perdemos a capacidade de dissuasão a muito tempo, só temos estratégias de resistência. Isso é importante para o desenvolvimento do país. Eu gosto de lembrar também a questão, por exemplo, do desenvolvimento do avião FX e de como isso foi benéfico para a Embraer, para a construção de aviões civis", argumentou.

O analista ouvido pela Sputnik Brasil ainda mencionou que os setores de defesa e segurança estão em debate em todo o mundo, sobretudo por conta de temas como mudança climática e a escassez de recursos naturais. Na semana passada, o presidente norte-americano Donald Trump voltou a cobrar um aumento dos investimentos dos europeus na OTAN, algo que precisa ser observado também pelo Brasil, de acordo com o docente da Escola de Guerra Naval.

"Há a necessidade de você comprar novos equipamentos e [a defesa] é estratégica em um mundo que é inseguro e que tende a cada vez mais combativo [...]. E por outro lado nós temos que pensar o que essa questão da defesa traz. Por exemplo, o submarino nuclear não é apenas o submarino nuclear, é o reator nuclear, é o combustível. Para você ter uma ideia, o submarino nuclear está muito acima de qualquer competência, de qualquer desenvolvimento outro de tecnologia que nós possamos ter no Brasil. O submarino nuclear já está gerando uma série de benefícios à população sem estar pronto, e quanto o reator estiver pronto, a Marinha vai patenteá-lo e você poderá fazer médias centrais nucleares médias e espalhar pelo país, resolvendo a crise energética sem afetar o meio ambiente", sentenciou.

E não pararia por aí, acrescentou Cabral. "Isso é um exemplo do que se faz com tecnologia militar. Hoje em dia, toda a hora se comenta sobre os avanços da Internet, da exposição de dados, e as Forças Armadas deveriam estar investindo muito mais em defesa cibernética do que investe, e isso seria ótimo para o país", finalizou.

Fonte: Sputnik

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