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Inovar é preciso

Com estaleiros repletos de encomendas, fornecedores de tintas investem no desenvolvimento tecnológico para se destacarem no mercado

Com o declínio da construção naval no Brasil na década de 80, o mercado de tintas marítimas era mantido por obras de reparo naval e pequenas construções. Atualmente, programas da Petrobras para atender às demandas do pré-sal, como o Promef, o EBN e as sondas de perfuração, além das encomendas de armadores privados, têm contribuído para que os fornecedores do insumo vislumbrem anos promissores.

 

Embora representem apenas cerca de 1% no preço do navio — desconsiderando a mão de obra —, a pintura é tida pelos estaleiros e principalmente para o armador como um item importante em termos de custo e qualidade da embarcação. “Se a aplicação da tinta não for feita da maneira correta e com material de qualidade, o armador vai carregar um custo enorme por toda a vida útil do navio”, diz o superintendente técnico do estaleiro Aliança, Marcelo Martins.

Para evitar o problema, antes de as tintas serem aprovadas pelo departamento comercial do estaleiro, instalado em Niterói, no Rio de Janeiro, são feitas análises técnicas com amostras dos principais materiais utilizados na pintura. “Todos os testes que fazemos com os fabricantes visam à qualidade da tinta, ao meio ambiente e à saúde dos nossos funcionários”, destaca o supervisor de Pintura, Transporte e Apoio do estaleiro, Sebastião Armond, que comanda uma equipe de 78 pintores. Os testes levam de um a dois meses para serem concluídos.


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Martins destaca que há poucas opções de fornecedores nacionais. “Alguns novos estão surgindo no mercado, mas ainda não tão competitivos em termos de preço, além de fornecedores estrangeiros com preço ao sabor da variação cambial e com a promessa de investimento em fábricas no Brasil, que é o ideal para nós”, declara.

A preferência por fornecedores que estejam instalados no país se dá por dois motivos intrinsecamente ligados. O primeiro deles é que, como o transporte das tintas é considerado perigoso pela legislação, quanto mais próximo o fornecedor estiver do estaleiro, melhor. Aliado a isso estão as exigências de conteúdo local. “A preferência por fornecedor estrangeiro representa um custo maior de logística. Queremos conteúdo local primordialmente pela facilidade na linguagem, por ter o fornecedor perto de nós e pelo menor prazo de entrega. É uma questão de logística”, resume Martins.

Uma das empresas tradicionais no ramo é a Weg Tintas. Cem por cento nacional, a empresa tem sua matriz localizada em Santa Catarina, uma fábrica em São Paulo e um centro de distribuição em Pernambuco. “Nossos produtos são desenvolvidos especificamente para as exigências do nosso mercado. Temos uma rede de serviço ao cliente distribuída por todo o Brasil e rapidamente atendemos às demandas de orientação técnica e treinamento. Logística de atendimento é um diferencial no mercado de tintas marítimas”, diz o diretor-superintendente da companhia, Reinaldo Richter.

Outra companhia em destaque no segmento é a AkzoNobel. Presente no país desde 1926, a companhia tem sua fábrica instalada em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, que atende ao mercado brasileiro e ao de países da América do Sul. Os produtos da empresa atendem a formulações globais, sendo desenvolvidos em várias partes do mundo. A partir daí, entram para o cadastro global e as fórmulas são então distribuídas.

“Cada fábrica produz utilizando o máximo de matérias-primas locais dentro da sua disponibilidade”, explica o gerente marítimo da AkzoNobel no Brasil, Juarez Machado. São cinco as unidades da companhia voltadas para pesquisa e desenvolvimento. Os laboratórios estão localizados nos Estados Unidos, na Inglaterra, na China, na Coreia e no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, junto à fábrica.

A companhia também prevê investimentos tanto na unidade fabril como no laboratório de P&D. “É a ampliação da fábrica em termos de capacidade produtiva e armazenamento, além do laboratório. A expansão ainda não começou, mas deve ser iniciada ainda esse ano e serão dois anos para concluir”, estima Machado.

Já os centros de Distribuição da AkzoNobel estão instalados em Pernambuco para atendimento estratégico na região Norte e Nordeste e em Santa Catarina para atender ao mercado do sul do país. Mas a companhia poderá aumentar o número de unidades ainda este ano. “Estamos estudando a possibilidade de abrirmos outros centros de distribuição. A curto prazo seriam mais dois para atender às necessidades do mercado. Estamos no momento em análise de viabilidade econômica”, revela o executivo, adiantando que a abertura dos centros poderá acontecer daqui a três meses.

Quem também está investindo no país é a Jotun Brasil. A companhia pretende concluir a instalação de sua fábrica, em Itaboraí, no Rio de Janeiro, em meados de 2013. Atualmente em processo de licenciamento ambiental, a unidade contará com uma área de 130 mil metros quadrados. Inicialmente está planejada para a produção de tintas anticorrosivas para o segmento marítimo e industrial. “A nossa fábrica no Brasil será uma das mais modernas em termos de layout, equipamentos e processos dentro da Jotun. Isto nos permitirá expandir as nossas atividades para outros segmentos facilmente”, prevê o diretor geral da Jotun Brasil, Ferran Bueno. A Jotun também possui divisões de tintas em pó e decorativas.

No Brasil desde 1998, a empresa tinha como principais focos os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Com o crescimento da companhia ao longo dos anos, a perspectiva do mercado de tinta brasileiro e a conclusão da fábrica, a Jotun Brasil planeja expandir suas operações para outras regiões, como o Sul e o Nordeste. “Nós já fornecemos tintas para alguns projetos nestas regiões para o segmento marítimo, mas nosso objetivo é estabelecer uma posição mais sólida e estar mais perto de nossos clientes”, afirma Bueno. A Jotun possui 70 unidades de operação e 38 fábricas em 39 países em todos os continentes, além de agentes, escritórios e distribuidores em mais de 80 países. A companhia emprega mais de oito mil pessoas e no ano passado as vendas totalizaram US$ 2,5 bilhões.

Outra empresa que se destaca no segmento de tintas marítimas é a Sherwin-Williams, cuja participação  no mercado naval e offshore aumentou a partir da aquisição da portuguesa Euronavy, em 2009. Atualmente, a companhia tem entre seus clientes o estaleiro Atlântico Sul, que está construindo os navios da Transpetro, e o Ecovix, pela venda de produtos para cascos de plataformas. A companhia conta com centros de pesquisa nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. “A parte de P&D é muito importante, estamos sempre buscando acompanhar as tendências e as necessidades do mercado”, diz o diretor comercial da companhia, Durival Motta,

Geralmente, a escolha das tintas é feita pelos próprios armadores. Nos contratos, alguns deles já selecionam o fornecedor e outros fornecem alternativas aos estaleiros. O estaleiro Aliança, por exemplo, tem trabalhado com o mesmo fornecedor há alguns anos em função da qualidade técnica, preço e logística, apesar de consultar o mercado sempre buscando novas opções.

A inovação dos produtos é uma constante no segmento. Cada vez mais, portanto, tem se reduzido o número de tipos de tintas utilizadas na pintura de um navio. No Aliança, por exemplo, com três tipos é possível pintar toda a embarcação. A primeira proteção a ser utilizada, explica Armond, é uma tinta anticorrosiva epóxi. Ainda dentro dessa família, um outro modelo de epóxi, sem solvente, é usado nos tanques de água doce.

Em seguida, o estaleiro utiliza uma tinta para acabamento, a poliuretano, nas áreas externas da embarcação, mais relacionadas ao visual. “O poliuretano dá um acabamento mais brilhoso, mais resistente e é de mais fácil manutenção”, explica. O terceiro tipo é a tinta anti-incrustante, usada no casco dos navios para evitar incrustações de moluscos e cracas e assim proporcionar maior velocidade à embarcação, economia de combustível e um período maior entre docagens.

Para todos esses tipos de tintas, novidades não faltam. A AkzoNobel tem investido no desenvolvimento de produtos “eco premium”, que são ambientalmente amigáveis e com baixa ou nenhuma emissão de poluentes na atmosfera. Um dos destaques da companhia é o Interplate Zero, a primeira tinta utilizada no processo de pintura. É um shop primer silicato de zinco à base de água que não emite gases tóxicos. De acordo com Machado, utilizar 100 mil litros de shop primer à base d’água por ano significa deixar de emitir 75 mil litros de solvente.

Ainda entre os epóxis, o produto de maior referência nas áreas naval e offshore da Sherwin-Williams é o ES-301. A aplicação da tinta se dá por hidrojateamento. Segundo Motta, é uma técnica inovadora de preparação de superfícies para a pintura, mais rápida e limpa do que o processo convencional de jateamento abrasivo. “Esse hidrojato lava e limpa a superfície antes de receber a pintura e elimina a salinidade presente na chapa. É um revestimento epóxi modificado, bicomponente sem solventes tolerante à umidade, então é possível pintar durante o dia e a noite, com 100% de umidade relativa do ar”, explica o executivo. O produto é aprovado para tanques de lastro, de óleo cru, de resíduos, casco externo, pontes de aço, porões, ambientes úmidos, convés e espaços vazios.

Com lançamentos para diversos segmentos anualmente, uma novidade da Sherwin-Williams são as tintas entumescentes Firetex, de proteção antichama para superfícies metálicas. A companhia iniciou a venda do produto no país após a aquisição no ano passado da Leighs Paint. Por enquanto, essa linha é a única que ainda não é produzida na sua unidade fabril, em São Paulo. “Produzimos praticamente quase todas as tintas industriais na nossa fábrica, em Sumaré, que tem a aprovação da ABS para produção das tintas. Apenas a linha Firetex que ainda está sendo fabricada na Inglaterra, não sabemos quando começará a ser produzida no Brasil”, diz Motta.

A Jotun Brasil também tem trazido inovações aos seus clientes. A linha de primer epóxi tolerante à superfície Jotamastic é uma das mais relevantes na série de produtos da companhia. Segundo Bueno, a linha é opção no mercado para proteção prolongada de aço envelhecido e de superfícies sem preparação ideal, reduzindo tempo e dinheiro durante o processo de manutenção.

A novidade da empresa é o Jotamastic 90, que foi desenvolvido com materiais que promovem, segundo a companhia, excelentes propriedades umectantes, assegurando uma melhor e maior penetração e aderência na superfície, promovendo assim uma proteção prolongada.

Outros benefícios obtidos com o produto são a redução do intervalo de repintura e elevada compatibilidade com diversos tipos de acabamento. “Com tudo isso, o novo Jotamastic 90 é uma nova geração e um dos primers tolerantes à superfície para manutenção e reparo mais avançados tecnologicamente no mercado”, gaba-se Bueno.

Dentre os produtos com maior destaque da Weg para os segmentos de  óleo  e  gás e marítimo está o Wegpoxi Block N2912 Tipo III, um primer epóxi novolac com fibras de vidro em sua composição. “É um produto de altos sólidos que permite a obtenção de altas camadas em uma única demão, conferindo alto poder de impermeabilização, resistência química e abrasão. É especialmente indicado na pintura de tanques de lastro, de combustíveis e outras estruturas expostas a ambientes altamente agressivos”, conta Richter, acrescentando que a empresa investe continuamente no desenvolvimento de novos produtos. “Inovação é uma área que nunca para na empresa. É um dos pilares do nosso crescimento”, afirma.

A Weg lançou recentemente produtos baseados em tecnologias inovadoras como o Wegpoxi Weather HPD 371 e Wegpoxi ERD 451. O primeiro é um primer/acabamento epóxi polisiloxano com alta resistência ao intemperismo e impermeabilização. O Wegpoxi ERD 451 também é um primer/acabamento mas à base de poliureia. “Ambos substituem os tradicionais esquemas ‘epóxi+poliuretano’ e podem ser aplicados em única demão de alta espessura, garantindo incrementos de produtividade”, diz.

Para evitar a incrustação marinha, os fornecedores também têm oferecido soluções inovadoras ao mercado. Desde 2007, de acordo com a Normam-23, da Marinha do Brasil, é proibida a utilização de anti-incrustantes que possuem compostos orgânicos de estanho como biocida por serem bastante agressivos à flora e fauna marinhas. A AkzoNobel foi além e desenvolveu um revestimento de desprendimento de incrustações, isento de biocidas, ou seja, não liberam material químico ao meio ambiente marinho. Denominado Intersleek 900, o produto traz versões à base de silicone ou de fluorpolímero. “Ambas substâncias promovem o desprendimento. Entretanto, o fluorpolímero apresenta maior propriedade de desprendimento em condições estáticas, enquanto que o silicone funciona melhor em velocidade acima de 15 nós”, explica Machado, ressaltando que, além de não influenciar no meio ambiente, o produto ainda pode reduzir em até 9% o consumo de combustível e emissão de dióxido de carbono anualmente.

Além de contribuir para que o navio seja mais amigo do meio ambiente, a evolução das tintas marítimas também vem ajudando na redução do tempo de secagem dos produtos. Com o aumento da espessura do epóxi, por exemplo, não são necessárias várias demãos, segundo Armond, do estaleiro Aliança. “É possível aplicar uma só com uma espessura maior, encurtando o tempo do processo”, diz ele, complementando que atualmente a secagem dessa tinta leva cerca de oito horas.

Esse tempo também pode variar de acordo com a temperatura. “A secagem das tintas de acabamento já reduz para seis horas, mas isso considerando uma temperatura de 25 graus. Se você aumenta o grau de calor, você reduz o tempo de cura”, explica. No estaleiro, o intervalo entre as demãos de tinta anti-incrustante é de seis horas. Armond ressalta, no entanto que, antes que o navio seja lançado na água, é necessário o intervalo de 12 horas desde a última aplicação de tinta. Em média, um navio de apoio marítimo consome cerca de 40 mil litros de tinta. Já um petroleiro utiliza aproximadamente 200 mil litros.

A AkzoNobel percebe o mercado de tintas marítimas como em franca expansão e, segundo Machado, a demanda por produtos de alta qualidade deve aumentar nos próximos anos . “Nossas vendas estão numa crescente constante, derivada da demanda do mercado marítimo brasileiro que foi impulsionado pelas obras da Transpetro junto aos estaleiros nacionais. A construção de embarcações de apoio também tem um papel importante para a crescente demanda dos nossos produtos”, diz ele, acrescentando que a área naval da empresa tem crescido junto com o mercado. Entre os clientes da companhia estão a Transpetro, além dos estaleiros Naviship e Eisa.

Para a Sherwin-Williams, o cenário para os próximos anos também é positivo. “Tem uma série de novos estaleiros sendo construídos, a Petrobras tem muitos investimentos com o pré-sal e está incentivando a produção local. O Brasil tem tudo para seguir próspero”, acredita ele, ressaltando que dos sete segmentos principais atendidos pela companhia, o naval é um dos mais significativos. Entre os diferenciais da companhia, cita Motta, está a capacitação dos seus funcionários. Por isso, a empresa mantém o pessoal técnico e comercial atualizado sobre o portfólio de soluções.

— A nossa venda é muito técnica, então nossos profissionais têm que conhecer muito o produto, as condições e o processo de aplicação — afirma. O treinamento aos seus clientes também é valorizada pela Sherwin-Williams. “A tinta é muito sensível à aplicação, à preparação, é preciso catalisar bicomponentes ou tricomponentes, é uma série de detalhes que, se falhar um, o sistema não vai funcionar”, detalha.

A Jotun Brasil também considera que o segredo do sucesso da companhia mundialmente é o seu pessoal. “A nossa equipe será o fator crucial para alcançarmos o nosso objetivo no Brasil, que é ser líder em termos de participação de mercado. Por isso treinamento e desenvolvimento são a maior parte de nossa estratégia”, diz Bueno. O mercado brasileiro, na avaliação do executivo, é atrativo não somente devido ao volume crescente de encomendas previsto para os próximos anos, mas também pelo país priorizar qualidade e performance a longo prazo. Segundo o diretor, a companhia tem apresentado crescimento em todos os segmentos e a tendência é mantê-lo. “Estamos ganhando alguns dos maiores projetos do país os quais nos dão realmente muito boas perspectivas em relação ao nosso crescimento no futuro”, acredita.

Richter, da Weg Tintas, avalia que o mercado de produtos voltados à área marítima tem apresentado índices de crescimento acima da média nacional. E a Weg Tintas tem acompanhado o ritmo. “Os ventos devem continuar favoráveis. A tendência é que se mantenha este crescimento por mais alguns anos. Este mercado parece estar alheio a qualquer crise mundial”, acredita. O mercado naval-offshore atualmente representa cerca de 15% do faturamento da Weg.

 


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