Porto do Açu

Desafios a superar

 

 

Fornecedores de eletroeletrônicos observam estabilidade no mercado, mas burocracia dificulta instalação de novas empresas


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Fornecedores e representantes tradicionais de equipamentos eletroeletrônicos têm percebido estabilidade no mercado naval. As embarcações já contratadas têm sustentado as vendas de equipamentos destinados à área marítima. A demanda de novos navios identificada no plano de investimentos da Petrobras tem atraído novas empresas do ramo para o país, mas a burocracia brasileira tem sido um obstáculo à instalação destas companhias.

 

“Sofremos uma grande dificuldade, foram praticamente três meses girando em torno da burocracia municipal, estadual e federal para abrir a empresa e isso nos atrasou. A dificuldade para se abrir uma empresa, para justificar seu ramo de trabalho, é muito grande, além da falta de integração dos órgãos públicos nas esferas municipal, estadual e federal”, reclama o diretor da Imtech Marine Brazil, Frederico Abdalla. De origem holandesa, a companhia tem 94 escritórios distribuídos por 25 países.

A Imtech Marine Brazil iniciou sua vinda para o país em agosto do ano passado e atualmente está instalada em Santos. Os próximos passos, segundo Abdalla, são a abertura de um escritório no Rio de Janeiro, que deve estar pronto para operação no próximo mês de junho, além de Recife e Rio Grande. Para o diretor, há ainda outros obstáculos que dificultam a entrada de novas empresas no país. “É uma demanda grande, mas o Brasil tem uma enorme dificuldade em facilitar a vida de quem quer operar aqui no que diz respeito à importação de produtos e pagamento de tributos. O custo de um equipamento praticamente dobra quando chega ao Brasil. Fica inviável fazer estoque aqui”, ressalta o executivo.

Este entrave, inclusive, é um obstáculo não só para as novas companhias aqui instaladas. No Brasil há mais de 25 anos, a Vision Marine conhece bem essa realidade. Para novas embarcações, diz o diretor da companhia, Celso Pinheiro, é hábito dos estaleiros a compra de sistemas eletroeletrônicos de fornecedor no exterior para obter isenção de impostos. No caso de manutenção ou retrofit de navios é que a compra geralmente é feita com a companhia, porque as condições mudam. “A importação de equipamentos é uma dor de cabeça. Temos que fazer o papel de agente representante e não de distribuidor. Para importar e revender, o preço sobe muito por causa da taxação”, afirma ele. A Vision Marine é representante no Brasil dos fabricantes Sperry Marine, Navis, Danelec Marine, Transas e Consilium, entre outros, e realiza serviços de instalação, assistência técnica e treinamento.

A opinião é compartilhada pelo diretor-presidente da Net-System Telecomunicações, Ivaney de Castro. “O único problema continua sendo os altos impostos para os equipamentos importados.  As altas taxas ainda são um entrave para o mercado brasileiro”, destaca. Atuante no mercado offshore desde 1998, a empresa é representante de equipamentos eletroeletrônicos para telecomunicações e navegação e tem seu escritório administrativo no Rio de Janeiro. A Net-System Telecomunicações conta também com bases operacionais em Macaé, onde está a maioria dos seus clientes, e em Vitória, no estado do Espírito Santo. Um escritório em Miami, na Flórida, é responsável por toda importação para o Brasil.

Quem também percebe o mesmo obstáculo é o diretor comercial da Radiomar, Luis Antonio Pinho. Segundo o executivo, o custo com importação de equipamentos e peças de reposição é absurdo. “A importação de equipamentos ou peças que não tem similar nacional é onerada com II, IPI, ICMS, PIS e COFINS, que provocam um aumento médio na faixa de 70% a 80% sobre os preços internacionais”, contabiliza ele. Pinho relata ainda outros desafios a serem superados.

“Portos distantes e ainda desprovidos de técnicos locais é um dos obstáculos, mas o maior deles é a burocracia para conseguir importar peças em regime emergencial e para conseguir entrar com elas a bordo. Soma-se a isso a dificuldade em conseguir autorizações para entrada dos técnicos nos portos. Em alguns, como, por exemplo Rio, Niterói, Macaé e Vitória, é mais fácil para nós, pois o atendimento é muito frequente e isso nos permite autorizações antecipadas, mas nem por isso sem uma tremenda burocracia”, desabafa. Fundada em 1974, a Radiomar atua na venda e serviços de equipamentos eletrônicos de comunicação e navegação. A companhia oferece a seus clientes desde o aconselhamento dos equipamentos mais adequados, projeto e integração de sistemas, instalação, comissionamento, treinamento até os serviços pós-venda nos contratos de manutenção preventiva ou avulsos. Com sede no Rio de Janeiro, a Radiomar tem atualmente bases próprias em Macaé, Vitória e Salvador.

Outro gargalo encontrado no país, na avaliação do gerente da Zenitel no Brasil, Belmiro Duarte, é a dificuldade para troca de peças que ainda tenham garantia. “Para enviar uma peça para fora [do Brasil], é preciso um laudo técnico. A burocracia para substituir uma peça em garantia é muito grande”, lamenta o executivo. Para solucionar a questão, a companhia mantém um estoque para suporte de garantia de seus produtos.

“Em vez de o cliente enviar essa peça para a Zenitel, nós a reparamos no Brasil, utilizando nosso parque local de sobressalentes. O mercado não tem espaço para que, em uma situação de emergência, o cliente tenha que esperar a importação de um novo equipamento para poder ter a garantia efetiva dele. Hoje temos um estoque no país justamente para atender aos clientes em caso de falha de equipamento”, afirma ele. A Zenitel iniciou sua atuação no mercado brasileiro em 2003 através de representantes. A partir de 2010, a empresa decidiu, por uma mudança estratégica, estabelecer um escritório no Rio de Janeiro, onde oferece suporte técnico e comercial, assistência técnica em campo e um showroom com os principais sistemas da empresa em funcionamento.

Para Duarte, o Brasil é visto no mundo como um mercado em potencial principalmente em função dos números divulgados pelo relatório de investimentos da Petrobras, mesmo com a revisão feita recentemente para baixo. Segundo o executivo, o país é estratégico também para atendimento de clientes de toda a América do Sul. “Quando a Zenitel monta um escritório no Brasil, ela não vê apenas o mercado brasileiro, mas também o sul-americano. Somos um ponto de presença da empresa nesse continente prestando assistência técnica aos nossos clientes do Mercosul”, declara.

 

Apesar de todos os gargalos, o mercado brasileiro tem se mostrado interessante aos fornecedores e representantes de equipamentos eletroeletrônicos destinados à área marítima. Pinho, da Radiomar, diz que o mercado está bastante aquecido e tende a aumentar não só pela demanda crescente de novas construções, principalmente ligadas à área da exploração petrolífera offshore, como plataformas de perfuração e produção, sondas, embarcações de apoio marítimo, mas também pela renovação da frota de navegação de longo curso, principalmente os navios da Transpetro.

Em função do crescimento da demanda por equipamentos eletroeletrônicos para navios em construção é que a Raytheon Anschuetz decidiu se estabelecer no país em agosto do ano passado. Fornecedora de equipamentos de navegação, a companhia tem entre seus produtos radares, bússolas magnéticas, ECDIS e autopilotos. Mas seu carro-chefe é o sistema de agulhas giroscópicas. De origem alemã, a empresa diz ter o equipamento mais popular do mundo: a chamada “Standard 22”, que foi desenvolvida com ajuda de Albert Einstein.

Atualmente, a empresa mantém um escritório no Rio de Janeiro, responsável pela América do Sul, que faz toda a administração, venda e suporte ao cliente. Mas a companhia planeja se expandir no país. “Temos planos, mas crescemos devidamente com a demanda brasileira. Acredito que daqui a cinco anos vamos ter a possibilidade de ter uma planta nossa aqui no Brasil”, estima o diretor da empresa no Brasil, Paul Robbe, explicando que no país poderiam ser fabricados, por exemplo, os sistemas de console.

Abdalla, da Imtech Marine Brazil, destaca que a empresa tem intenção de fechar entre três e cinco projetos grandes por ano. Segundo o executivo, a companhia já tem três projetos em andamento com estaleiros nacionais, além de realizar o comissionamento das embarcações offshore e de rebocadores de um cliente da Wilson, Sons. O executivo conta ainda que a companhia busca equiparar-se à matriz, instalada em Roterdã, realizando 250 atendimentos por mês. “O Brasil está em franca expansão na área marítima e naval especialmente, e viemos dar suporte tanto na automação dos sistemas eletroeletrônicos como na área de manutenção”, destaca ele. Com planos de crescimento no país, a Imtech Marine Brazil estuda parceria com empresas nacionais. “No Brasil temos dificuldades em encontrar startups de qualidade, que produzam, por exemplo, cabos específicos que tenham toda qualificação que a indústria offshore demanda. A melhor solução seria trazer tecnologia e fazer parceria com essas empresas. Já estamos fazendo vários contatos”, afirma Abdalla.

Para Pinheiro, da Vision Marine, as vendas têm se mantido estáveis. A queda de lucro e performance da Petrobras, que podem refletir nas encomendas, no entanto, tem deixado o executivo apreensivo. “Estamos preocupados com os resultados financeiros da empresa, que podem vir a afetar as encomendas para os estaleiros e consequentemente o mercado de navipeças. Por enquanto as embarcações já estão contratadas, os estaleiros já estão construindo e nós estamos participando de todos os processos de compra. Mas o que vem por aí na frente é o que nos preocupa”, salienta ele.

No Brasil, a Zenitel fechou nos últimos meses contratos com seis estaleiros. Um dos clientes foi a Locar, que vai equipar a balsa Locar Pipe com tecnologia de comunicação IP, além de um sistema completo de entretenimento com distribuição de sinal de SAT/TV e Rádio AM/FM da Zenitel. Segundo Duarte, a balsa está sendo construída no Rio de Janeiro, pelo estaleiro da própria empresa. Com previsão de entrega ainda neste semestre, a embarcação tem 87,50 metros de comprimento, acomodação para 159 pessoas e possui capacidade para lançamento de dutos de seis a 60 polegadas, equipada com um guindaste de 205T, dois tensionadores de 60T, um guincho de abandono e recuperação de linha de 120T, oito guinchos de ancoragem para posicionamento e cinco estações de soldagem e inspeção.

Duarte adianta também que a balsa contará com um sistema integrado de comunicação interna, que utiliza a solução All-In-One-Cable, que engloba números de telefones IPs, rede de dados, sistema de difusão sonora e alarme geral. Com esta solução, explica o gerente, através de um cabeamento único, trafegam dados e voz, reduzindo consideravelmente os custos com instalação e comissionamento.

 

A companhia tem investido fortemente em pesquisa e desenvolvimento de novas soluções. Dos 63 milhões de euros faturados pela empresa em 2011, 4% dos recursos foram revertidos diretamente em P&D. De acordo com o último levantamento da companhia, realizado no ano passado, das 413 embarcações que operam em águas brasileiras,   135 estão equipadas com sistema Vingtor de comunicação interna, o que marca a participação da empresa em aproximadamente 32% do mercado offshore no Brasil.

Nas vendas mundiais, a empresa obteve um crescimento de 30% no ano de 2010 para 2011. No ano passado, o grupo Zenitel realizou mais de 650 projetos no mundo. Para 2013, Duarte adianta que as expectativas para o mercado brasileiro são boas. “Dos estaleiros que temos contato, obtemos uma lista de 90 barcos para serem construídos e acreditamos que em 28% deles temos grandes chances de fechar negócio”, estima o executivo.

A Raytheon Anschuetz do Brasil também vem aperfeiçoando seus equipamentos para o mercado offshore. A agulha giroscópica ‘Standard 22’, por exemplo, agora é equipada com uma unidade de distribuição modificada, a qual é reforçada por um caminho independente da transmissão via bússola magnética (TMC – Transmitting Magnetic Compass). Assim, uma falha na unidade de distribuição ou mesmo no sistema giroscópico não afetará o processamento de rumo da bússola magnética. Este aprimoramento garante que a repetidora de direção seja comutada automaticamente para rumo magnético em qualquer situação problemática do sistema giroscópico.

Com esta função, diz Robbe, não é necessário um bypass óptico da bússola magnética a bordo do navio. De acordo com o executivo, a função de transmissão independente da bússola magnética no ‘Standard 22’ vai aumentar os padrões de segurança e oferecer benefícios econômicos aos clientes. “Graças ao novo recurso, nenhuma unidade TMC separada será exigida e o estaleiro não vai precisar instalar um bypass óptico para a bússola magnética. Isso economiza custos para o proprietário do navio e tempo de instalação para o estaleiro”, frisa o diretor.

Para Castro, da Net-System Telecomunicações, o Brasil ainda é dependente das soluções estrangeiras no que diz respeito a inovações tecnológicas. “O país ainda “engatinha” nesse mercado. Para o segmento offshore, apesar de sempre haver inovações, o mercado brasileiro é bastante conservador. Não se mexe no que está dando certo.  No mercado de petróleo e gás, que requer precisão e “real time”, não há tempo para testes ou protótipos”, opina o executivo. Além do fornecimento de equipamentos, a Net-System Telecomunicações também atua no desenvolvimento dos projetos, passando pelos serviços de instalação até o fornecimento de garantia para todas as linhas de produtos.

Entre os clientes da companhia estão a Marinha do Brasil, Bram Offshore, Maersk Supply, Bravante e Tranship, entre outros. Com a alta do mercado offshore, Castro conta que as vendas da empresa aumentaram em cerca de 40% de 2011 para 2012. Para este ano, o executivo também espera um aumento no faturamento. “Em 2013, a Net System Telecomunicações fará 15 anos de existência e temos a certeza de ser um ano bastante promissor”, espera. Um dos diferenciais da empresa, segundo Castro, são os cursos para treinamento de mão de obra qualificada na operação e manutenção de todos os sistemas e equipamentos. Para isso, conta com uma equipe de profissionais especializados visando um atendimento rápido e pontual.

 

Quem também tem promovido seminários técnicos e desenvolvido programas de capacitação e treinamento junto aos estaleiros e armadores é a Zenitel. O objetivo é que os profissionais possam desenvolver equipes técnicas para realizar comissionamentos dos equipamentos e até mesmo realizar a sua manutenção básica. Os seminários acontecem a cada dois anos. O primeiro ocorreu em 2010 e o segundo no ano passado. “Com esse programa, são reduzidos os custos com manutenção, porque o profissional torna-se capacitado a fazer a manutenção preventiva do sistema e até corretiva, em alguns casos”, afirma Duarte.

Já a Vision Marine mantém um centro de treinamento no Rio de Janeiro, que oferece cursos básico e avançado de posicionamento dinâmico. A atividade, indicada aos tripulantes de embarcações de apoio marítimo que operem sistemas de DP nas embarcações, é realizada durante uma semana, com aulas teóricas e práticas. “Com o aumento dos navios em operação, existe uma demanda boa”, afirma Pinheiro.

A empresa é a responsável pela instalação da ponte integrada de navegação dos quatro navios construídos pelo estaleiro Mauá a Transpetro, no âmbito do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef). Celso Furtado, Sergio Buarque de Holanda e Rômulo Almeida já entraram em operação. O equipamento para o navio José de Alencar, que está em fase final de acabamento, já foi entregue ao estaleiro, mas ainda não foi instalado, segundo Pinheiro.

Para a companhia, o faturamento de 2011 foi melhor que o do ano passado. O executivo acredita que as vendas devem continuar estáveis este ano. “A perspectiva é de que 2013 seja semelhante ao ano de 2012, sem crescimento”, afirma. Para a Radiomar, entretanto, no ano passado a companhia verificou um aumento “significativo” em relação a 2011, diz Pinho, sem divulgar valores. “Se não existir nenhuma surpresa por parte do nosso governo ou das principais empresas que lideram o mercado, as perspectivas são de, pelo menos, igualar o desempenho do ano anterior, mas nosso objetivo é ultrapassar essa marca”, conclui o diretor.

 

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