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Cenário volátil

 

 

Fornecedores de motores para embarcações de serviços veem cenário com moderado otimismo — mas apostam em crescimento


Porto do Açu


As empresas que atuam no mercado nacional de motores para embarcações de serviços, como rebocadores e empurradores offshore, avaliaram 2012 como um bom ano para as vendas do setor, mesmo com a queda na produção de petróleo da Petrobras registrada até novembro do ano passado ante igual período de 2011 e as dificuldades enfrentadas pelo governo federal na construção de hidrovias nos rios brasileiros. Para 2013, algumas companhias apostam que o setor manterá o bom cenário, mas alguns empresários e especialistas preveem quadros distintos.

 

O relatório do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), divulgado em março do ano passado, aponta que até 2020 haverá demanda para, pelo menos, 500 embarcações offshore no Brasil, o que tem gerado otimismo para o setor. O balanço anual da entidade, divulgado em dezembro, revela que a carteira atual de encomendas dos estaleiros brasileiros — com contratos de construção assinados em andamento ou manifestação de intenção de construção — soma 390 obras.  Desse total, 111 são barcaças fluviais, 70 navios de apoio offshore, 26 empurradores fluviais e 18 rebocadores portuários.

Outro fator que pode impulsionar a demanda por embarcações é o pré-sal. Informações divulgadas pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) no início de janeiro informa que a produção de petróleo e gás natural no pré-sal em novembro aumentou 25,6% em relação ao mês anterior, totalizando 272,1 Mboe/d (milhões de barris por dia), atingindo novo resultado recorde. Por outro lado, para cumprir os prazos estipulados pela ANP e não perder o direito de exploração dos campos de petróleo na camada pré-sal, na costa brasileira, a Petrobras pode passar pela terceira queda anual de produção total do óleo em 59 anos de existência, revelam informações do Banco de Dados de Exploração e Produção (BDEP), da ANP. Isso pode ocorrer, porque no ano passado, a estatal teve que priorizar os investimentos no pré-sal ao invés de se concentrar na manutenção dos níveis gerais de produção de petróleo. Dessa forma, de acordo com dados da ANP, a produção do acumulado do ano passado até novembro estava em 1,968 milhão de barris diários, volume 2,3% menor que os 2,021 milhões de barris diários alcançados em 2011.

Para 2013, a expectativa da empresa é, pelo menos, frear essa queda. Caso isso não ocorra, as vendas das integrantes da cadeia de construção naval poderão ser afetadas.

Floriano Pires, professor de Engenharia Oceânica do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), destaca que a maior parte dos projetos de construção de navios e plataformas de petróleo está em andamento. Mas por motivos diversos, como burocracia em licitações, o ritmo de construção das embarcações de apoio offshore diminuiu ante os anos anteriores. Este fato acabou afetando, em parte, o segmento de motores de embarcações de serviços.

“É normal ocorrer um atraso no processo de recuperação de alguns dos setores da indústria naval brasileira. Existem várias carteiras encomendadas, como os estaleiros de Paraguaçu, da OSX, e do Atlântico Sul, no Rio Grande do Sul. A expectativa é que, num futuro próximo, apareça uma grande demanda por novas embarcações”, diz Pires.

De acordo com Helcio Makoto, diretor de Vendas da WEG, a quantidade de negócios gerados em 2012 foi menor devido à desaceleração nos investimentos da Petrobras.  “Esperamos que em 2013 a Petrobras retome os processos para construção de novos navios e tenhamos maiores possibilidades de negócio”, diz o executivo.

Mas, mesmo com alguns entraves, 2012 foi um bom ano para as vendas de algumas companhias. Makoto diz que, apesar de as encomendas da Petrobras terem sido menores, a WEG participou de “grande parte” dos negócios gerados pela estatal. Para Alcides Furuno, gerente comercial da Mitsubishi Heavy Industries (MHI) Sul-Americana Distribuidora de Motores Ltda. — a representante da japonesa Mitsubishi no Brasil —, as vendas registradas no ano passado foram “razoavelmente” boas para a companhia. “No entanto, o resultado de 2013 dependerá principalmente da demanda das empresas interessadas em explorar ou que já exploram o pré-sal”, afirma. Os principais produtos da empresa no segmento são motores de 600 a 2.000 HP, voltados para barcos de serviços pesados como rebocadores, empurradores e outros tipos de veículos onde é necessário algum tipo de resistência e robustez.

O principal ramo de atuação da Cummins no país é o de caminhões, mas, nos últimos cinco anos, vem se focando na Unidade de Motores Marítimos. A empresa possui uma fábrica instalada em Guarulhos (SP). A expectativa da companhia para 2013 é crescer no mesmo patamar de 2012, ou seja, cerca de 45% ante o ano anterior — principalmente na área de serviços, pois existem hoje diversas embarcações em operação, em construção e sendo trazidas para o Brasil dotadas de motores e geradores Cummins. “A tendência é um aumento significativo na procura por serviços, como mão de obra e reposição de peças”, afirma Olmedo Farfan, gerente regional da companhia.

A Unidade de Motores Marítimos da empresa se concentra nos motores marítimos a Diesel, tanto mecânicos quanto eletrônicos. Para se diferenciar no mercado, a Cummins aposta em um vasto mix de produtos e com uma grande margem na potência. Os motores de propulsão da companhia vão desde 500 HP com seis cilindros até motores de 60 litros que geram 2.700 HP e podem equipar embarcações offshore, barcos de pesca e empurradores, entre outros. Já os motores auxiliares que equipam navios de grande porte estão disponíveis a partir de 75 kw de seis cilindros até 1.900 kw de 60 litros.

“A demanda surgirá não só com a construção das embarcações já previstas, como também com o surgimento de novos portos, com a previsão de se descobrir novos campos do pré-sal no Sul do país”, avalia Farfan. “Com isso, a Cummins entende a necessidade de investimento para o desenvolvimento nesta região, que é, inclusive, parte dos projetos da empresa para 2013. A companhia está investindo em novos produtos, recursos e suporte e está preparada para atender ao mercado em toda costa brasileira”, completa o executivo.

No ano passado, a Cummins lançou o gerador QSM 11-CP, desenvolvido em Cingapura, destinado a todo tipo de embarcação, desde barcos cuja finalidade é o transporte de passageiros e de pesca, até navios petroleiros e plataformas flutuantes. Ele permite preencher uma lacuna que existia no mix de produtos na faixa de potência de 250 a 300 kWe.

A Cummins não é a única com projetos para o território brasileiro. A Rolls-Royce Marine Brasil também planeja fazer novos investimentos no país. Ronaldo Melendez, diretor comercial da empresa, diz que o resultado das vendas do ano passado foi maravilhoso.  “Para 2013, com a entrada da MTU (adquirida em 2011) em nosso portfólio estamos prevendo um ano muito bom também”, analisa. A companhia atua em duas frentes no segmento de motores de embarcações de apoio: fabrica motores de média rotação através da marca Bergen e produz motores de alta rotação pela marca MTU.

Hoje, o Brasil corresponde a 95% de todos os motores vendidos pela Rolls-Royce na América Latina. “Nossa avaliação é que o mercado brasileiro é de suma importância para o crescimento futuro da empresa”, diz Melendez. Assim como as duas companhias já citadas, a Rolls-Royce tem planos para a crescente demanda por embarcações de apoio que irá surgir com o pré-sal. “A empresa tem planos bastante audaciosos para o Brasil. No momento, tudo que posso informar é que tem a ver com a aquisição de um terreno de 103 mil metros quadrados em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Muito em breve o mercado terá mais notícias”, revela.

Assim como ocorre com a Mitsubishi, todos os motores da Yanmar vendidos no Brasil são fabricados no Japão e a companhia não planeja instalar uma fábrica no país durante os próximos cinco anos. Alan Garcia Facchini, coordenador de Negócios da Yanmar South América, afirma que por não ter uma planta fabril em território nacional a empresa enfrentou algumas incertezas em 2012, geradas pelas crises internacionais que afetaram a taxa cambial brasileira.

A companhia informa que em seu portfólio não existe um segmento de motor para embarcações cuja lucratividade das vendas esteja acima dos demais. “Mas, atualmente, o foco da atuação da Yanmar é a Amazônia, principalmente o ramo de embarcações rápidas de passageiros, transporte de cargas gerais e de combustível”, afirma Facchini. Sobre a futura demanda que deve surgir com o pré-sal, o executivo diz que a subsidiária tomará as medidas necessárias de acordo com a visão estratégica da matriz.

A Yanmar entrou no mercado de embarcações de serviços em 1959 e, segundo Facchini, logo conquistou uma fatia considerável que, posteriormente, foi tomada por empresas concorrentes, como Scania e MWM. “Em 2008, iniciamos a escalada em busca de retomar o mercado e estamos passo a passo tentando obter uma fatia considerável, que hoje não é tão expressiva”, revela.

 

Para Bruno Cesar Parodi, diretor da Empresa Brasileira de Motores Marítimos (Embrammar), sediada no litoral de São Paulo e especializada na marinização de motores, a assistência técnica é um dos maiores diferenciais que uma empresa de motores de embarcações interessada em atuar no mercado nacional pode ter. “Na hora de comprar, brasileiro pensa em assistência técnica”, resume.

Na avaliação de Parodi, 2012 não foi um bom ano para muitas empresas do ramo de motores de embarcações de serviço. “O dólar cresceu bastante sobre a moeda brasileira, tornando o produto importado mais caro. Muitos empresários estão reclamando. Há também a concorrência de motores usados, que atua principalmente no mercado informal, mas que rouba consumidores”, diz.

Hélcio Makoto, da WEG, tem a mesma opinião de Parodi. “O pós-venda no mercado naval é item fundamental, pois a falta de atendimento correto pode deixar uma embarcação fora de operação. Um dia parada, o prejuízo pode chegar a US$ 20 mil”, avalia. A WEG conta com uma unidade em Macaé — região com maior produção de petróleo do país. “Isso traz mais segurança aos clientes e abre oportunidades de novos negócios”, afirma. O executivo lembra ainda que a companhia tem unidades fabris em Gravataí, Itajaí, Jaraguá do Sul (Matriz), São Bernardo do Campo e Linhares, que cobrem toda a região atual do pré-sal que é explorada hoje. “Estamos atentos à futura demanda que pode surgir com a exploração do pré-sal e, se for necessário, temos condições tanto operacionais quanto financeiras para ampliar a capacidade fabril”.

Felipe Lopes, gerente do Mercado Marítimo da Sotreq, companhia representante da Caterpillar (CAT) há 70 anos, conta que a empresa está investindo constantemente na própria estrutura, seja na área de vendas de equipamentos ou na área de suporte ao produto. “Hoje, a estrutura dedicada apenas ao mercado marítimo conta com mais de 100 pessoas — sem incluir a oficina de reparos de componentes situada em nossa filial no Rio de Janeiro, que conta com cerca de 50 colaboradores, nem a área de petróleo, com mais de 100 trabalhadores”, explica. “Para garantir condições ideais de trabalho a esse quadro de funcionários, paralelamente, investimos em treinamento e nas ferramentas necessárias para a execução de um serviço de qualidade. Também é válido mencionar nossos estoques de peças com mais de 115 mil itens, espalhados por diversas filiais no Brasil”, completa.

Por conta dos constantes investimentos que tem feito, a Sotreq informa que contratos importantes foram assinados em 2012, como o acordo com o estaleiro Rio Tietê para o fornecimento, até 2015, de 40 motores de propulsão e 120 grupos geradores dos comboios que farão o transporte de etanol e derivados de petróleo na hidrovia Tietê-Paraná. A companhia garantiu também o fornecimento para os 12 rebocadores a serem construídos pela Wilson Sons. “Ainda para a Wilson Sons, continuaremos com as entregas dos grupos geradores para seis embarcações que prestarão apoio à Petrobras na exploração de petróleo na Bacia de Campos até 2014”, afirma.

“Os números de 2012 foram excelentes. Conseguimos superar nossas metas numéricas, onde mantivemos o crescimento em faturamento da ordem de 40% sobre o ano anterior”, revela. Para 2013, a Sotreq estima um crescimento da ordem de 25% sobre os números do ano passado.

Segundo Lopes, apesar de não haver previsão para fabricação de motores da Caterpillar no Brasil, a produção de grupos geradores da família 3.500 continua a crescer na fábrica da CAT em Piracicaba (SP). Ainda segundo o gerente, além desse modelo, já há entregas confirmadas para a família C280 (motores de média rotação) em 2013 e, num futuro próximo, os grupos geradores MaK também serão produzidos localmente.

Já a Cummins, com o intuito de prestar o melhor atendimento e reduzir ao máximo o tempo das embarcações paradas, tem como objetivo intensificar a cada dia o preparo da rede de distribuição com treinamentos específicos, elevando o nível técnico de seus profissionais.

Floriano Pires, professor da Coppe-UFRJ, acredita também que o chamado ‘Custo Brasil’ — que engloba os altos impostos, elevado custo da energia e da mão de obra, dentre outros fatores — dificulta a produção em larga escala de certos componentes, como motores para embarcações, tanto que a maioria das grandes empresas do setor que atuam no mercado brasileiro é multinacional. Parodi tem a mesma opinião. “Fatores como a rigorosa legislação ambiental tornam difícil para o fabricante nacional fazer frente aos produtos estrangeiros. Hoje, a competitividade das empresas instaladas no Brasil está bastante ruim”, avalia.

O diretor da Embrammar afirma que o diferencial do produto nacional é que a compra possui financiamento via Banco Nacional Econômico e Social (BNDES). “Hoje, o crédito para o setor é bastante amplo, mas o mercado nacional é conservador. Há uma inércia para mudar de marca, por exemplo. Mas acredito que, por causa do pré-sal, o mercado das empresas fornecedoras para a cadeia de construção naval e fluvial, vai melhorar, tanto para as companhias que importam quanto para as que fábricas aqui”, diz. “Tirando as dificuldades, é um mercado que promete. Há mais crédito. Agora, os brasileiros têm que acordar para não perder essa onda de recuperação de demanda. Tem que haver um amadurecimento”, completa.

 

Além do investimento no suporte e nas vendas, as companhias também focam constantemente no aperfeiçoamento de seus produtos. A Rolls-Royce, por exemplo, passou a fabricar motores eletrônicos desde que o mercado começou a demandar esse tipo de produto. Já a Mitsubishi informou que entrará no mercado de motores eletrônicos no momento que achar mais oportuno.

A Caterpillar, que revende produtos no Brasil através da Sotreq, investe anualmente cerca de US$ 2,3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. Uma de suas últimas novidades foi o motor C175, que chega a 2.200 bkW e pode ser utilizado tanto para propulsão quanto para geração de energia. A Cummins criou em 2011 dois Centros de Excelência especificamente para atender aos produtos e equipamentos do setor de motores. Um deles foi inaugurado em Houston, no Texas (EUA), e é responsável por fabricar produtos customizados para o mercado de óleo e gás e explorações terrestres, de acordo com a necessidade do cliente. Já a unidade localizada em Cingapura, em operação também desde o início de 2011, tem as atividades mais voltadas para o mercado offshore.

As regiões Norte e Nordeste estão se mostrando promissoras para o segmento. Elas também estão se tornando alvo das petroleiras, pois a procura por petróleo está crescendo nessas regiões. Os vários e largos rios locais também são potenciais vias de escoamento de produtos do Centro-Oeste brasileiro, como a soja do estado de Mato Grosso.

Para atender aos clientes da região Norte, a Sotreq já possui filiais em Manaus e Belém. Em dezembro de 2012, a companhia assumiu a operação da Marcosa, responsável pela comercialização de máquinas, equipamentos e serviços da Caterpillar no Nordeste. “Com isso, em breve, poderemos estender ao Nordeste a mesma estrutura já existente nas demais regiões nas quais a Sotreq atua”, explica Felipe Lopes.

Segundo Alcides Furuno, da Mitsubishi, a empresa está sempre prospectando mercados promissores e tanto o Norte como o Nordeste são tidos como regiões consumidoras potenciais. “Estamos prospectando compradores nas duas regiões”, diz. Ronaldo Melendez informa que a atuação da Rolls-Royce cobre todo o território brasileiro, agindo de maneira integrada.

A Cummins conta com uma cobertura por toda a costa nacional, totalizando seis distribuidores principais posicionados estrategicamente, com escritórios avançados capazes de atender e dar cobertura às frotas e embarcações e navegação interna, que inclui as regiões Norte, Nordeste, Sul e Sudeste, além dos demais países da América do Sul. A Yanmar revela que em 2013 estabelecerá um plano de ações para o Norte e Nordeste brasileiro. Já a WEG diz que está focada no segmento de barcos de apoio para as plataformas. “Caso esse mercado avance para as regiões Norte e Nordeste, podemos nos posicionar rapidamente, pois temos uma unidade fabril em Manaus”, aponta o diretor de vendas da companhia.

Para Floriano Pires, embora o cenário seja positivo de um modo geral para os fornecedores, o Brasil corre risco de perder a onda da retomada da cadeia produtiva da construção naval. “O país precisa ganhar competitividade, não é um processo imediato, mas um desafio. Hoje, uma parte das encomendas de embarcações já foi feita. Isso pode garantir um tempo para que a indústria naval brasileira, como as empresas fabricantes de motores para embarcações, fique minimamente competitiva. Mas se isso não for bem conduzido, corre-se sério risco de retrocesso”, finaliza o professor.

 

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