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Berço da construção naval

 

 

De estaleiros a fornecedores da cadeia produtiva do setor, Niterói mantém o posto de maior polo naval do país


Rimac


Os empregos diretos em estaleiros no país somam 62.036 pessoas com carteira assinada, segundo o balanço anual do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), publicado em dezembro. O Rio de Janeiro lidera o ranking dos estados que mais empregam pessoal na área, com participação de 48,30%, equivalente a 29.967 empregos. Deste montante, Niterói emprega a maioria. São 13.643 pessoas trabalhando em estaleiros. O município é historicamente reconhecido por sua representatividade no setor naval e sedia estaleiros tradicionais do país, como o Mauá, Aliança, STX OSV, Renavi-Enavi e Mac Laren. Além disso, a cidade também conta com fornecedores que integram a cadeia produtiva do setor, atendendo à demanda de construção e reparo de embarcações. Já consolidado e considerado o maior polo da indústria naval do país, será que ainda há espaço para a instalação de novas empresas?

 

De acordo com o vice-prefeito de Niterói, Axel Grael, a prefeitura tem mantido contato com companhias nacionais e estrangeiras da cadeia produtiva naval e offshore interessadas em se estabelecer no município. “Não podemos dizer quantas, mas em breve vamos anunciar a chegada de  empresas. Existe toda uma cadeia produtiva que a prefeitura quer motivar e estimular para que se amplie o impacto econômico dessa atividade na cidade. A indústria naval faz Niterói ser um player super importante nesse cenário do pré-sal e do crescimento da indústria do petróleo”, avalia ele.

Mais do que atrair novos investimentos, a missão da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Município será consolidar e ampliar as empresas que já se encontram em Niterói. “Temos a vocação para a indústria naval, é o nosso legado. Então temos que levar isso adiante e cada vez mais contribuir para que haja um desenvolvimento dessas empresas que aqui estão. Ainda existem áreas na Ilha da Conceição e Ponta d’Areia, são poucas mas existem, e vamos fazer um estudo de caso aprofundado para que possamos ofertar para quem aqui já está”, afirma o secretário da pasta, Fabiano Gonçalves, destacando que em análise está uma antiga área de polo industrial na divisa da cidade. O espaço pode servir para uma ampliação do setor navipeças.

Se para o governo ainda há condições de expandir o polo naval da cidade, para os empresários o espaço na região já é considerado escasso. O transporte é o principal problema enfrentado pelos funcionários que trabalham nas empresas do setor, localizadas principalmente na Ilha da Conceição e em Ponta d’Areia. Para tentar solucionar a questão, a Associação Conselho Empresarial Naval-Offshore e Serviços (Asscenon) pretende implantar um serviço marítimo que vai ligar os municípios de São Gonçalo e Niterói para transportar cerca de quatro mil empregados.

Para isso, segundo o presidente da Asscenon, Elísio Fonseca, seria necessária apenas a implantação de um cais de atracação na praia das Pedrinhas, em São Gonçalo. Além deste local, as paradas da lancha aconteceriam nos estaleiros Mauá, localizado na Ponta d’Areia e no Brasa, instalado  na Ilha do Caju, e na Ilha da Conceição. “Todos os cais estão prontos. A atracação é fácil no Mauá, no Brasa e no final da ilha. O problema é fazer atracação nas Pedrinhas. Estamos levando isso muito a sério, porque temos necessidades. Vai chegar um momento em que o empregado não vai conseguir chegar ao trabalho”, preocupa-se ele, destacando que cerca de 60% dos empregados do setor naval que trabalham em Niterói são moradores de São Gonçalo.

A associação também busca uma empresa para operar o transporte. Segundo Fonseca, a CCR Barcas não tem lanchas disponíveis no momento, mas já mantém contatos com uma empresa na Bahia. O transporte marítimo ligando os dois municípios, continua ele, ajudará na redução do fluxo de carros e ônibus das empresas que transportam seus empregados. “Queremos acabar com o transporte de empregados feito pelas empresas. Os ônibus [que virão de São Gonçalo] não vão precisar chegar a Niterói, da Praia das Pedrinhas eles voltam. Vamos melhorar o trânsito não só na Ilha da Conceição, como na própria cidade de Niterói”, acredita ele. Fonseca ressalta ainda que somente poderão fazer uso do transporte os empregados das empresas da associação.

Em atuação oficialmente desde janeiro desse ano, a Asscenon teve início com quatro empresas associadas e hoje conta com 26. São elas: Brasco Logística Offshore; Brasilamarras; CBO; CCR Barcas S/A; CCR Ponte S/A; Codepe; DSN Estaleiro Indústria Naval; Eletrotécnica Guedes e Farias; Estaleiro Aliança; Estaleiro Brasa; Estaleiro Mauá S/A; Equipemar; Girassol Apoio Marítimo; Lifting; Mac Laren Oil; Mecanavi; Naproservice Offshore Estaleiros do Brasil; Nitport/Nitshore Engenharia e Serviços Portuários; Oceaneering; Renave/Enavi; Rolls-Royce; STX OSV; Subsea 7; TCE Reparos Navais; UTC Engenharia e Wellstream/GE Oil e Gas. A associação tem como objetivo planejar e executar medidas que contribuam para a melhoria das condições das áreas onde as empresas estão instaladas. A associação soma hoje oito mil empregos diretos e 25 mil empregos indiretos.

Gonçalves, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, reconhece que a questão da mobilidade urbana merece atenção, mas ressalta que a solução perpassa a secretaria. “Estamos levando a demanda para a secretaria de Urbanismo e Mobilidade Urbana. Certamente vamos achar uma solução. É fato que não temos como absorver todos os trabalhadores vindo de carro. Isso é impossível”, diz. Para Grael, a mobilidade também é considerada um dos principais gargalos da região. “Um dos principais investimentos que a nossa gestão vai fazer hoje é na solução dos problemas de mobilidade, os engarrafamentos. Isso resulta em dificuldade de acesso, é um limitante até mesmo para o transporte de matéria-prima e de trabalhadores”, diz ele, anunciando que já há uma verba de R$ 280 milhões para investimentos em mobilidade.

A gestão do prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, e de seu vice, Axel Grael, teve início no último dia 1º de janeiro. Sanar a situação financeira da prefeitura é um dos primeiros desafios da dupla. Segundo Grael, a gestão anterior iniciou o mandato com uma dívida de R$ 70 milhões e R$ 40 milhões de reais em caixa. A prefeitura atual chegou com o caixa gerado e uma dívida de cerca de R$ 500 milhões. Para o vice-prefeito, a cidade está saindo de um momento de isolamento e recuperando seu protagonismo. “Nos últimos anos, passamos por um processo de isolamento e Niterói perdeu muitas oportunidades. Estávamos inadimplentes com o governo federal, sem a possibilidade de captar recursos para fomentar a atividade econômica e realizar os investimentos de que a cidade precisa. Apesar dessa dificuldade, o cenário é muito positivo. Estamos vivendo um ciclo em que teremos grandes eventos esportivos, temos a agenda do pré-sal e o Comperj”, lista.

Para o desenvolvimento da área naval e offshore em Niterói, há propostas do governo relacionadas a logística e infraestrutura. “Existe um pleito antigo das empresas, que é fundamental para que tenhamos um crescimento do setor, que são investimentos na área de dragagem na Baía de Guanabara. Assim é possível aumentar a acessibilidade do parque industrial naval e com isso trazer para as empresas de Niterói um mercado de estruturas maiores”, acredita.

A implantação de escolas técnicas em Niterói para formação de mão de obra também é um dos focos da prefeitura para o segmento. A administração já está prospectando possíveis locais para a instalação de um Centro Tecnológico Naval. O objetivo é preparar a população niteroiense para se beneficiar das oportunidades que virão com o crescimento da atividade do setor naval e offshore em Niterói. “Já temos o nível superior e vamos criar o técnico, que é o intermediário entre o operário chão de fábrica e o nível gerencial da empresa. Hoje há uma carência enorme desse profissional”, constata Gonçalves.

Um setor que também pode ser incentivado é o náutico. Para Grael, o segmento tem tradição e é um nicho de mercado importante para a cidade. A ideia, segundo o vice-prefeito, é atrair empresas que fabricam embarcações e equipamentos para os barcos. “Defendemos que Niterói seja reconhecida nacionalmente como a cidade da vela. Temos sete iates clubes, só na enseada de São Francisco temos cerca de duas mil embarcações hoje”, orgulha-se.

Para os próximos anos, Grael aposta em três oportunidades que poderão beneficiar a cidade. “Niterói tem vocação, tem potencial para atrair mais investimentos ainda. Talvez seja a cidade que tenha uma oportunidade única de se beneficiar das principais agendas que teremos aqui no futuro, como a agenda do pré-sal, do Comperj e a dos grandes eventos esportivos. Acho que Niterói vai ter boas novidades nessas áreas”, palpita.

 

Niterói abriga hoje boa parte do parque produtivo da indústria naval brasileira. O primeiro estaleiro do país, inclusive, foi instalado no município: o Mauá. O Arranjo Produtivo Local (APL) Naval Shore dos municípios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, realizado pelo Sebrae/RJ e 12 entidades que compõem o Comitê Gestor do APL, destaca o forte componente histórico que teve início com Irineu Evangelista de Sousa, mais conhecido como o Barão de Mauá, que se tornou proprietário do Estabelecimento de Fundição e Estaleiros da Ponta d’Areia, em Niterói, em agosto de 1846. O estaleiro chegou a construir mais de 70 navios a vapor e a vela para navegação de cabotagem no país. Em 1890, no entanto, suas atividades foram praticamente encerradas, e a frota que operava no Brasil era estrangeira em quase sua totalidade. O estaleiro Mauá foi integrado à Companhia Comércio e Navegação (CCN) em 1905, especializada em construção e reparo de navios.

A CCN construiu um dique seco na Ponta d’Areia, inaugurado em 1911. O primeiro navio construído no Brasil, em termos industriais, foi o Ponta d’Areia, lançado ao mar em 1961. No início dos anos 70, a CCN passou a ter projeção internacional, quando construiu navios para Alemanha, Chile, Escócia, Estados Unidos e Grécia. Em 1973, a CCN, já conhecida como Estaleiro Mauá, atingiu o máximo da sua produção, fabricando 12 navios de médio porte, com peso de 15 mil toneladas. Entretanto, na década de 80, com a crise financeira e quebra de contratos, a indústria naval viveu seu pior momento, levando a estagnação do setor durante décadas. Com a retomada da construção naval, o estaleiro se reergueu. Em julho do ano passado, o Mauá atingiu a marca de 200 embarcações construídas ao entregar à Transpetro o navio de produtos Sérgio Buarque de Holanda.

Além do Estaleiro Mauá, estão instalados em Niterói e são associados ao Sinaval: o Aliança S.A. – Indústria Naval e Empresa de Navegação; Dockshore Navegação e Serviços; DSN Equipemar Eng. e Indústria Naval; Empresa Brasileira de Reparos Navais S.A. - Renave; Enaval – Engenharia Naval e Offshore; Estaleiro Brasa; Mac Laren Oil Estaleiros; Naproservice Offshore Estaleiros do Brasil; STX OSV Niterói S.A.

 

O polo naval de Niterói também conta com fornecedores tradicionais da indústria naval. Um deles é a Brasilamarras, que já atua no mercado há 35 anos produzindo linhas de amarração para a indústria offshore. Situada na Ilha da Conceição, a companhia conta com três instalações para a fabricação de amarras, com capacidade de produção de 18 mil toneladas de amarras por ano. Entre seus projetos emblemáticos estão o fornecimento para as FPSOs Cidade de São Paulo e Cidade de Paraty, que operam para a Petrobras.

De acordo com o proprietário da Brasilamarras, Elísio Fonseca, que também acumula a função de presidente da Asscenon, o mercado está estagnado. “A Petrobras está fora do mercado, então fica todo mundo parado. Temos trabalho por conta de encomendas feitas anteriormente e a gestação é muito longa”, diz ele, destacando que uma amarra pode levar de 120 a 150 dias entre a encomenda e o início da entrega.

Com 230 empregados, a Brasilamarras conta também com instalação para a realização de ensaios não destrutivos; local para limpeza, inspeção e recuperação de amarras usadas, que inclui prensa especial para aperto de malhetes e forno para tratamento individual de elos, além de duas máquinas para teste de amarras.

Também na Ilha da Conceição está instalada a Brasco Logística Offshore. Pertencente ao grupo Wilson, Sons, a companhia opera um terminal portuário dedicado às operações de atendimento ao mercado de óleo e gás. Entre os serviços oferecidos pela empresa estão compra, armazenamento e entrega de suprimentos para as plataformas marítimas, aluguel de contêineres, utilização de equipamentos e pessoal. Por meio da Central de Recolhimento de Resíduos, a Brasco também recebe, processa, separa e dá o destino correto aos resíduos das plataformas de óleo e gás para clientes e terceiros.

Localizada entre as bacias de Santos e Campos, a companhia tem uma posição estratégica no que se refere à construção, manutenção e apoio logístico às embarcações que atendem ao mercado de óleo e gás, na avaliação da diretora executiva da Brasco, Renata Pereira. “Esta é uma uma região tradicional de atendimento à indústria offshore. Aqui há uma diversificação muito grande. Tem desde empresas de engenharia submarina a estaleiros, passando por empresas de apoio logístico. Há um polo bastante diversificado que atua na cadeia de petróleo e gás”, afirma ela.

No mercado há 12 anos, a Brasco conta atualmente com 225 funcionários e grande parte deles, diz Renata, é morador de Niterói, principalmente da Ilha da Conceição. A diretora destaca também que não há espaço no entorno para uma possível ampliação da unidade. Segundo ela, os limites territoriais da companhia já estão definidos. Por outro lado, a diversificação do portfólio de serviços tem aumentado. “Expandimos no sentido de oferecer cada vez mais serviços aos nossos clientes. O aumento de área não é previsto, mas isso não significa que a gente não aumente a movimentação e o número de funcionários contratados porque, ao oferecer mais serviços, também podemos expandir a empresa”, avalia ela, destacando a importância do cluster naval de Niterói para a economia do município e para a indústria naval nacional. “O polo naval é extremamente importante para o desenvolvimento da região e da indústria brasileira e para o desenvolvimento das comunidades que aqui habitam”, conclui.

A Rolls-Royce é uma das empresas que escolheram a cidade de Niterói, mais precisamente a Ilha do Caju, para estabelecer um centro de serviços marítimos. Desde 2009, a unidade vem fornecendo o suporte necessário ao portfólio de equipamentos marítimos produzidos pela empresa. Reparo e manutenção de motores a diesel, propulsores, sistemas de automação e controle, além de maquinário de bordo são alguns dos serviços realizados na unidade. Com investimentos de US$ 9 milhões, o centro tem uma área efetiva de oficina de 2,1 mil metros quadrados, com capacidade de erguer pesos de até 100 toneladas, localizada dentro de uma área total de 13 mil metros quadrados. A oficina conta também com um local de usinagem, além de área específica para lavagem, jateamento e pintura de equipamentos.

A unidade faz parte de uma rede com centros semelhantes instalados em 27 países. De acordo com o presidente da Rolls-Royce na América do Sul, Francisco Itzaina, atualmente cerca de 130 funcionários estão alocados nessa unidade. “Desse total, aproximadamente 30 pessoas vivem na própria cidade de Niterói. Temos também funcionários divididos em regiões vizinhas ao município, como São Gonçalo e Itaboraí, além do Rio de Janeiro”, explica o executivo.

Segundo Itzaina, a cidade de Niterói foi escolhida pela Rolls-Royce por conta do já estabelecido polo industrial naval e da indústria de navipeças, que permite à companhia atender melhor às necessidades dos clientes marítimos também instalados na região. O estabelecimento do centro de serviços marítimos em frente ao canal de acesso ao porto de Niterói também oferece acesso direto ao mar pela Baía de Guanabara. “Niterói concentra hoje o maior polo da indústria naval do país e possui, portanto, vocação natural para atrair investimentos de grandes empresas, sejam elas nacionais ou estrangeiras. Para nós, é uma satisfação poder fazer parte desse sólido mercado construído na cidade e, principalmente, poder contribuir com a geração de mais empregos para a região”, conclui Itzaina.

 

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