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Avanços moderados

Achatamento de preços frente aos importados e dificuldades para obter certificação ainda são entraves para empresas de salvatagem

Os fornecedores de equipamentos de salvatagem têm grandes desafios pela frente. Em um mercado considerado estagnado mas com boas perspectivas, o dever de casa passa pela normatização das empresas aos padrões internacionais de segurança da Organização Marítima Internacional (IMO) e adequação de preço para competir com os produtos importados. As dificuldades existem, mas os fornecedores estão se movimentando para sobreviver e o mercado está crescendo. Um bom sinal foi registrado pela Marinha em 2012, o aumento da demanda pela homologação de materiais de salvatagem.

Nos últimos dois anos, oito novas empresas tiveram seus protótipos homologados. De acordo com a Diretoria de Portos e Costas (DPC) da Marinha, novos fabricantes e empresas estrangeiras solicitaram homologação nesse período. Além disso, os fabricantes nacionais se propuseram a fabricar equipamentos que não eram produzidos no Brasil, os quais só podiam ser adquiridos através de importação.


Porto do Açu


A Marinha atribui o interesse dos fabricantes à fiscalização e à conscientização da comunidade marítima sobre a importância de usar equipamentos de salvatagem homologados. O incremento do número de embarcações empregadas na atividade de apoio marítimo também impulsionou a utilização desses equipamentos. “Estes fatos têm levado os fabricantes, principalmente de coletes salva-vidas, a expandirem suas fábricas para conseguirem atender à demanda do mercado”, aponta o vice-almirante Ilques Barbosa Junior, diretor de Portos e Costas da Marinha.

A Allo/Sul Marítima, que estava focada em sinalização náutica, passou por reestruturação societária e busca retomar sua participação na venda de coletes. “Estamos investindo nessa área de salvatagem e vamos gradativamente entrar no mercado”, explica o diretor da empresa, Henrique Lotito. Até o início de 2014, a marca Sul Marítima — que já responde pela área de sinalização — vai englobar a área de salvatagem, hoje atendida pela Allo. “Desde o mês passado aumentamos os estoques, procurando incrementar nossa participação no mercado de 10% a 15% em 2013”, projeta Lotito.

O foco da Allo/Sul Marítima na divisão de salvatagem será a venda de coletes e boias salva-vidas. O diretor da empresa conta que já está com um protótipo pronto e que em maio dá entrada em processo de homologação de colete e luz de sinalização, ambos da classe I, utilizados nas atividades offshore de exploração de petróleo. Essa categoria tem como principal fornecedor a Ativa Náutica, homologada pela DPC para comercializar essa classe de coletes em fevereiro de 2012. Os concorrentes estimam que a Ativa ocupe entre 80% e 90% do mercado brasileiro de coletes salva-vidas.

A sinalização fabricada pela Allo/Sul Marítima, acoplada ao colete, permanece acesa por até 14 horas. “Essa pequena luz classe I será fabricada no Brasil. As luzinhas que estão no mercado atualmente são importadas. Tínhamos a nossa luz aprovada, mas, por problemas internos da empresa, perdemos a certificação. Agora estamos dando entrada com um novo produto, mais compacto e tecnicamente mais avançado”, explica Lotito.

Com cerca de 80% no mercado de cestas de transferência, a Sollax investe numa linha de produtos e manutenção de botes e balsas salva-vidas. A empresa representa a canadense DBC Marine, do grupo Survitec, que detém marcas conhecidas no mercado como a Zodiac. Uma das estratégias da Sollax para crescer no mercado de salvatagem é a expansão de sua estrutura física de atendimento. A base de Vitória (ES), que iniciou serviços em 2013, possui três mil metros quadrados e atende às áreas de incêndio e salvatagem.

Outra estação, em Conceição de Macabu (RJ), deve ficar pronta em junho e terá cinco mil metros quadrados. Atualmente, a empresa ocupa 1,5 mil metros quadrados em Macaé, também no norte fluminense. Com a estrutura expandida, a empresa conseguirá atender à demanda da bacia de Campos (RJ) , onde se concentra boa parte das atividades de exploração do petróleo brasileiro.

O gerente comercial da Sollax, Sandro Ferreira, conta que a empresa investiu R$ 2 milhões em 2012, sendo R$ 1 milhão na base capixaba. O objetivo é crescer de 15% a 20% na área de salvatagem. “Estamos apostando bastante em salvatagem e no nosso crescimento em 2013”, projeta Ferreira. Uma das estratégias oferecidas pela Sollax compreende a substituição de balsas antigas por novas pelo custo de uma revisão.

A empresa está apostando na divulgação desse sistema em feiras e convenções. Para a Sollax, a dificuldade do mercado nos últimos anos se deu por conta da entrada de equipamentos chineses no país. De acordo com Ferreira, os produtos chineses vieram com preço muito baixo, afetando a competitividade das empresas que já atuavam no país. Ele conta que muitos compradores de produtos chineses enfrentaram transtornos com reparo e manutenção.

O diretor da Índios Pirotecnia, Pedro Miranda, calcula que os produtos chineses estão entrando no mercado brasileiro com custo até 60% abaixo dos produtos nacionais. Segundo ele, frente à fiscalização donos de embarcações afirmam terem comprado os produtos de salvatagem fora do Brasil, o que dificulta a aplicação de punições. O diretor da Índios Pirotecnia ressalta que desconhece a eficiência do material concorrente. Além disso, Miranda estima que a Índios Pirotecnia paga uma média de 46% de impostos em seus produtos.

Algumas entidades, como a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), atuam para obter algum tipo de restrição para os produtos chineses.

 

Um dos desafios do mercado de salvatagem no Brasil é não fechar no vermelho tendo que oferecer um produto de qualidade e certificado por um baixo preço. No caso dos coletes das classes II e III, voltados para recreação, as empresas ainda precisam encarar a sazonalidade e vender produtos em grande escala. “A empresa tem que vender em quantidade grande, caso contrário não alcança lucro saudável. Os períodos de baixa nas vendas são muito significativos. As empresas que entram nesse mercado precisam tomar cuidado porque podem não resistir”, relata Lotito, da Allo/Sul Marítima.

Ele acrescenta que a exigência de certificações torna mais difícil a entrada de empresas que queiram explorar esse mercado. “Acredito que o preço dos coletes nacionais está num nível tão baixo que os importadores não se interessam muito em colocar seus produtos aqui por causa da baixa lucratividade”, avalia Lotito. Uma das soluções de sobrevivência dessas empresas continua sendo criar outras divisões para equilibrar as finanças.

Um dos motivos da Allo/Sul Marítima ter formado uma célula na empresa de equipamentos de sinalização foi a inconstância no mercado de salvatagem. Lotito menciona a história da cigarra e a formiga, em que os fornecedores têm de vender bem no verão para poder passar bem o inverno.

Miranda, da Índios Pirotecnia, diz que o ano de 2012 fechou de forma estável, após um início inseguro. O mesmo está acontecendo no começo de 2013, segundo o empresário. “Tivemos no início de 2012 uma ligeira fraqueza no mercado interno, como estamos tendo insegurança nesse ano também. Em 2013 não estamos tendo o retorno significativo que estávamos aguardando. Pensei num mercado bem mais aquecido, em torno de 20% a 25%, mas estamos vendo que estagnou”, lamenta. Ele torce pela recuperação da economia no segundo semestre.

Algumas empresas fecharam suas portas. Para evitar um desfecho semelhante ao de outras empresas nacionais, a Índios Pirotecnia busca crescer no mercado de munições não-letais, inclusive no exterior. Miranda conta que os sinalizadores da empresa conseguiram boa receptividade na América do Sul, em países como Argentina, Chile, Uruguai e Equador. “Estamos atingindo preços melhores que os importados por causa de frete. Bons negócios nesses países estão colaborando bastante para a empresa”, comemora Miranda. As lanças retinidas, voltadas para embarcações da marinha mercante, são o foco da empresa no exterior.

 

O processo de homologação dos materiais de salvatagem é regulamentado pela Normam-5/DPC. A legislação estabelece que os materiais fabricados no país para utilização em embarcações nacionais sejam homologados pela instituição após testes rigorosos. Dentre as exigências para a aprovação desses materiais está a obrigatoriedade de a empresa interessada dispor de sistema de controle de qualidade certificado. O material para ser homologado deve ser aprovado em todos os testes previstos na Normam. Atualmente, 47 empresas possuem materiais homologados pela Diretoria de Portos e Costas (DPC).

Lotito, da Allo/Sul Marítima, diz que o mercado salvatagem ainda é pouco técnico. Ele acredita que as empresas devem se empenhar mais para que seus produtos sejam aprovados. A Allo/Sul Marítima realiza testes dentro de sua fábrica antes de submeter o produto à homologação. Ele conta que algumas empresas perdem tempo, gastam dinheiro com testes e têm produtos reprovados pela DPC porque não fazem protótipos de qualidade.

A Allo possui um laboratório interno para realizar seus testes. “Sempre exijo, pelo menos, 10% a mais da capacidade dos meus equipamentos do que a própria Marinha exige”, detalha Lotito. De qualquer forma, ele diz que a homologação dos produtos não demora menos de três meses. Um dos motivos seria a falta de contingente por parte da Marinha.

O diretor de Portos e Costas da Marinha explica que o tempo para homologação de um protótipo depende de sua complexidade e do número de testes exigidos. Uma boia salva-vidas, por exemplo, é submetida a oito testes, enquanto uma balsa salva-vidas inflável é submetida a 33 testes antes de ser aprovada. “O tempo de homologação é diretamente influenciado pela duração e complexidade dos testes aos quais são submetidos os protótipos. É possível estimar apenas o tempo mínimo para conclusão da homologação mais simples como no caso da boia: cerca de 45 dias”, explica o vice-almirante Barbosa Junior.

As embarcações de sobrevivência — baleeira e balsas salva-vidas — são os equipamentos mais complexos para homologação, devido ao grande porte e à quantidade de testes a que devem ser submetidos. Da mesma forma, os dispositivos de lançamento e de embarque de baleeiras, que são submetidos a grandes esforços mecânicos por ocasião dos testes.

A IMO possui comitês permanentes que estão frequentemente revendo e aperfeiçoando os requisitos de segurança das embarcações e de seus equipamentos de salvatagem. Esses grupos emitem documentos com recomendações técnicas de homologação e de utilização de materiais que são analisadas e aplicadas pela Marinha brasileira.

 

O Norte do país é a região que concentra o maior número de carências em relação ao uso e manutenção de equipamentos de salvatagem. A Índios Pirotecnia tem poucos equipamentos fornecidos para a região. A baixa demanda também é relatada pelos fornecedores de coletes salva-vidas. “Lá a fiscalização é praticamente abandonada. A maior fiscalização se encontra na região Sudeste e um pouco na região Sul. Nas demais regiões do país, a movimentação e a cultura de salvatagem são bem escassas”, observa Miranda.

Os fornecedores relatam a precariedade da navegação nos rios do Norte e acrescentam que as embarcações estão mal equipadas com produtos de salvatagem. Miranda sugere que o governo crie incentivos para que empresas e proprietários consigam equipar suas embarcações. “Em qualquer embarcação nos países do primeiro mundo é utilizada salvatagem, não por obrigação, mas por consciência de quem navega. O seguro da embarcação não é feito sem o material de salvatagem, a comunidade náutica não põe o barco na água se não estiver equipado com salvatagem. O Brasil é um pouco relaxado nesse ponto”, comenta Miranda.

Outro problema enfrentado é a dificuldade do descarte dos sinalizadores de salvatagem. Miranda diz que é fácil encontrar produtos fora da validade. Ele conta que é possível comprar esse material no mercado varejista por 10% do valor original. Miranda diz que esses sinalizadores de baixa qualidade são os utilizados, por exemplo, pelas torcidas de times de futebol nos estádios.

 

Paulo Verkaar, da Shelter Santos Cursos e Treinamentos, relata aumento nas inscrições para o Curso Básico de Segurança de Navios (CBSN). Ele atribui essa procura às oportunidades de emprego oferecidas pelas companhias de cruzeiros. Normalmente, a procura é intensificada entre julho e dezembro. O mesmo acontece com o Curso Básico de Segurança em Plataformas (CBSP), em decorrência do aumento de quantidade de plataformas e unidades offshore móveis em atividade. Também existe a expectativa de profissionais aquaviários que anseiam ingressar na marinha mercante.

Esses cursos são obrigatórios conforme as normas da IMO e exigidos para profissionais em atividades de hotelaria, gastronomia e outras não ligadas diretamente à operação e condução do navio. Os módulos incluem treinamento real em simulador de combate a incêndio. “Os alunos saltam ao mar com coletes salva-vidas e embarcam em balsa salva-vidas inflável, além de entrarem e conhecerem todos os equipamentos de uma embarcação de abandono (baleeira)”, explica Verkaar.

Desde 2010, quando a Shelter iniciou suas atividades em Santos o número de alunos aprovados vem aumentando. Segundo a empresa, mais de três mil alunos foram aprovados no CBSN e, em 2013, a empresa já formou mais de 50 alunos no CBSP e mais de 100 no CBSN.

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