As impressionantes oscilações dos preços do petróleo no mercado internacional (veja o gráfico abaixo) produzem uma grande perplexidade e passam importante recado aos brasileiros.

Primeiramente, aos fatos e, depois, ao resto. Há apenas um mês, o preço do barril tipo Brent (que é negociado em Londres) passava dos US$ 80. No fechamento do mercado de terça-feira, desabou para os níveis mais baixos dos últimos sete meses, a US$ 65,58 por barril, queda de 5,4% sobre as posições de fechamento do dia anterior e de 22,9% em relação ao pico das cotações, em 3 de outubro. A pequena recuperação desta quarta-feira deve ser entendida como mero ajuste a eventuais exageros do dia anterior, mas não garante o início da recuperação.

A enorme volatilidade dos preços já é, por si só, comprovação de que o mercado pouco sabe do terreno onde está pisando e no qual despeja tanto dinheiro. A escalada anterior foi interpretada como o resultado da atuação de três fatores: excelente desempenho da economia norte-americana e relativamente bom desempenho da economia europeia e chinesa, condições que tendem a manter alto o consumo e, consequentemente, os preços; perspectiva de imposição de boicote comercial ao Irã, 3.° maior produtor, que produziria impacto sobre a oferta global; e quedas de produção da Venezuela e da Nigéria, que também reduziram a oferta e, portanto, puxaram os preços para cima.

 

De lá para cá, algo puxou a prancha altista em que surfaram os analistas e conspirou para a derrubada dos preços. Os aumentos da produção da Arábia Saudita e da Rússia mais do que compensaram a queda da oferta. A alta anterior permitiu que os produtores de petróleo e (gás) de xisto (shale oil - produto oriundo do xisto) dos Estados Unidos batessem recorde de produção em dezembro para 11 milhões de barris diários. E o presidente Donald Trump repentinamente afrouxou as sanções contra o Irã ao permitir que continuasse a vender petróleo para a China e para a Índia.

O balanço é hoje o da existência de um excedente no mundo da ordem de 1 milhão de barris por dia. Ou seja, o mercado enfrenta estoques equivalentes a cerca de 10% do consumo.

A economia mundial, principalmente da Europa, passa sucessivos sinais de perda de vigor. Para março, está previsto o divórcio da Grã-Bretanha com a União Europeia. Seja qual for o desfecho das negociações, o Brexit deverá produzir turbulências e toda a cadeia de suprimentos deverá ser atingida, com impacto inevitável sobre o mercado do petróleo.

É nesse climão de forte achatamento de preços que o cartel da Opep se reunirá na primeira semana de dezembro para examinar o que fazer. Diante de quedas bem menos acentuadas de preços, a decisão no passado foi cortar a produção. De olho no que possa acontecer nessa reunião, o presidente Trump botou o colherão dele nessa panela. Segunda-feira tuitou ele: “Tomara que a Arábia Saudita e a Opep não cortem sua produção. Os preços devem ficar bem mais baixos, com base na maior oferta”. Essa pressão deixa sem resposta algumas perguntas implícitas: até que ponto a Opep tem bala para despejar mais petróleo no mercado de maneira a satisfazer Trump e de quanto teria de ser a oferta (e os estoques) para chegar ao preço desejado?

A grande perplexidade mencionada na abertura deste texto diz respeito à impressionante incapacidade dos analistas, consultores e observadores internacionais de prever, com um mínimo de confiabilidade, o comportamento de um mercado tão extenso e tão importante quanto o do petróleo. Afinal, nenhum dos fatos que derrubaram os preços foi consequência do choque devastador de um asteroide contra o orbe terrestre. Também não aconteceu tsunami colossal nem outro cataclismo imprevisível. E, no entanto, as oscilações de preços em período tão curto foram imensas.

E o recado aos brasileiros é o de que também não é possível garantir a tal previsibilidade que se pretendeu exigir da Petrobrás quando da fixação dos preços da gasolina e do óleo diesel. Não foi o que cobraram os caminhoneiros por ocasião das paralisações de maio? Nesta quarta-feira, a Petrobrás reduziu em mais 3% os preços da gasolina. E mais cortes internos de preços devem voltar a acontecer e, nisso, ajudarão a conter a inflação.

Fonte: Estadão

 

 

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