As grandes companhias de petróleo da Europa estão ignorando a tentativa da União Europeia (UE) de blindar o petróleo iraniano das sanções impostas pelos Estados Unidos, por temerem que o esforço possa deixar seus negócios expostos a penalidades mais duras da administração Trump.

A UE anunciou planos para a criação de um canal especial de pagamentos para o petróleo que vem do Irã, mas executivos do setor e advogados afirmam que a medida é em grande parte simbólica porque não há garantias de que ela vá proteger as grandes multinacionais da reação dos EUA.

Patrick Pouyanné, executivo-chefe da Total, disse esta semana que a companhia francesa de petróleo não vai se juntar aos esforços da UE para contornar as sanções americanas ao Irã. “Não podemos correr o risco de sermos impedidos de usar o sistema financeiro dos EUA”, disse ele, em uma entrevista coletiva na Rússia.

 

A resistência das empresas demonstra o grau do problema enfrentado pelos governos da UE que tentam manter vivo o acordo nuclear firmado com o Irã, diante das sanções impostas pelos EUA, que voltarão a ser aplicadas às exportações de petróleo e ao banco central do Irã em novembro.

Os maiores compradores europeus do petróleo iraniano incluem a Total, a Eni e a Saras da Itália, CEPSA e Repsol da Espanha e Hellenic Petroleum da Grécia. Mas os EUA prometeram punir qualquer companhia que desafiar as sanções ao Irã.

Muitas grandes empresas saíram do Irã mesmo com seus governos tentando manter os laços comerciais com o país, que foram vitais em convencer Teerã a concordar com restrições ao seu programa nuclear sob o acordo firmado em 2015.

Um porta-voz da Eni disse: “Não estamos mais presentes no Irã e nossos contratos comerciais vencerão naturalmente em novembro. Vamos acatar totalmente todas as sanções e regras decidias pela comunidade internacional”.

A CEPSA, uma refinaria espanhola, que disse que o petróleo iraniano respondeu por 13% de suas compras em 2017 e no primeiro semestre de 2018, alertou em um prospecto divulgado esta semana para os riscos que as sanções representam para os seus negócios. Na metade de outubro. A refinaria da CEPSA na Espanha deverá receber 1 milhão de barris do petroleiro iraniano chamado Monte Udala, navio que, segundo observou um porta-voz da companhia, será o último vindo do Irã.

“Todas as companhias vão pensar em seus acionistas primeiro, independentemente do que os EUA fizerem”, afirma um executivo do setor. “Ninguém vai correr o risco de se complicar por causa das sanções americanas.”

Dados da Kpler, uma empresa que monitora o setor de petróleo, mostram que os embarques de petróleo iraniano para a Europa diminuíram. Eles caíram para 422.000 barris por dia em setembro, contra 843.000 barris/dia no mesmo período do ano passado. O número é o menor desde o começo de 2016.

Os demais signatários do acordo nuclear anunciaram formalmente na semana passada um plano liderado pela Europa para criar um veículo com propósitos especiais, para manter laços comerciais com o Irã, incluindo as exportações de petróleo. O acordo nuclear foi assinado pela China, Rússia, França, Alemanha e Reino Unido, assim como o Irã e os EUA.

Federica Mogherini, responsável pela política externa da UE, disse que o novo canal de pagamentos proposto “facilitaria a realização de transações financeiras legítimas com o Irã”, permitindo a empresas europeias e talvez de fora do bloco a manterem suas relações comerciais com o país.

Mohammad Javad Zarif, ministro do Exterior do Irã, disse a jornalistas na semana passada que tem esperanças de que um acordo possa ser firmado, permitindo ao governo iraniano “vender nosso petróleo e receber os recursos”.

Teerã está confiante de que suas exportações de petróleo não serão paralisadas e acredita que conseguirá vender a commodity para pequenas e médias empresas da Europa que possuem poucos laços com os EUA.

Mas John Bolton, consultor de segurança nacional, disse na semana passada que a UE “é boa na retórica, mas ruim em colocar as coisas em prática”, observando que o veículo com propósito especial não existe e que não há uma data oficial para a sua criação. “Não pretendemos que nossas sanções sejam burladas pela Europa ou qualquer outro país”, acrescentou ele.

Uma pesquisa feita pelo “Financial Times” com dez executivos negociadores de petróleo não revelou nenhuma disposição em negociar o petróleo iraniano e correr o risco das retaliações de Washington. A ameaça das sanções vem ajudando a alimentar um rali nos preços do petróleo, que já levou o preço do barril do Brent para US$ 86 nesta semana, o maior patamar em quatro anos.

“As companhias que são concorrentes globais se preocupam com as pegadas que deixam nos EUA, e provavelmente elas se preocupam com muita coisa mais que alguns poucos negócios com o Irã”, diz Roger Matthews, advogado sênior e especialista em sanções da Dechert. “Para os grandes concorrentes, é difícil vislumbrar como esse canal de pagamentos faria realmente diferença.”

Brett Hillis, sócio e especialista em sanções da Reed Smith, uma firma internacional de advocacia, diz que “o nível extraordinário de preocupação” das grandes empresas de serem “pegas na rede do Irã” torna difícil ver qualquer uma delas participando do sistema de pagamentos de petróleo proposto.

Alguns diplomatas europeus admitem há meses, a portas fechadas, que seus planos são em parte uma tentativa simbólica de sinalizar seu compromisso com a continuidade do acordo nuclear com o Irã.

“As companhias tomam suas próprias decisões”, disse um ministro de governo da UE sobre as contramedidas europeias. “Na prática, é improvável que os grandes grupos queiram assumir quaisquer riscos, mas cabe e eles escolher.”

Fonte: Valor

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