Entidades do setor sucroenergético comemoram a meta estipulada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), no âmbito da Política Nacional de Bicombustíveis (Renovabio), de reduzir em 10% a emissão de gás carbônico em dez anos, a partir do uso de bicombustíveis.

Além de representar 600 milhões de toneladas de dióxido de carbono a menos na atmosfera até 2028, a proposta deve aumentar a demanda por etanol no país dos atuais 26,7 bilhões para 47 bilhões de litros ao ano – crescimento de 76%.

“O Renovabio é o segundo Pró-Álcool. Não teve nenhuma política pública desde então e essa veio para ficar. Mas, o Pró-Álcool era só para brasileiro, visando o mercado interno. Hoje, o Renovabio é uma solução ambiental mundial”, diz Paulo Montabone, especialista em gestão de produção sucroalcooleira.

 

Diretor da Fenasucro & Agrocana, a maior feira do setor no mundo, que acontece anualmente em Sertãozinho (SP), Montabone diz que a indústria brasileira tem condições de atender a demanda por etanol, seja modernizando a estrutura que já existe ou implantando novas usinas.

“A Lamborghini que está circulando no Brasil é abastecida com 27% de etanol. Se você pegar a Fórmula Indy, também é feita a etanol. Então, eficiência nós já temos. Produção, estamos em busca. Falta muito pouco para o Renovabio ser o segundo Pró-Álcool”, diz.

Economista-chefe da União da Indústria Canavieira (Unica), Luciano Rodrigues explica que um dos principais pilares da Renovabio é justamente estabelecer metas de descarbonização em longo prazo, o que possibilita ao setor se preparar para atender à demanda.

“Você tem uma perspectiva – uma diretriz de longo prazo para o uso de bicombustíveis – bastante clara e, consequentemente, como a gente compõe o mercado, uma noção razoável da participação, da necessidade de etanol nos próximos dez anos”, diz.

Crédito de Carbono

Ao mesmo tempo, ainda segundo Rodrigues, a Renovabio é inovadora na medida em que o benefício ambiental ganha valor econômico: cada tonelada de carbono que deixar de ser liberada se transformará em um título que poderá ser comercializado em bolsas de valores.

O chamado Crédito de Descarbonização por Biocombustíveis (CBio) será emitido pelo produtor de acordo com a sua eficiência ambiental. Já os distribuidores de combustíveis cumprirão a meta ao demonstrar a propriedade dos CBios em sua carteira.

“A ideia é que, com o passar do tempo, todo mundo busque cada vez mais eficiência, ou seja, produzir com menor nível de emissão, porque vai poder gerar mais títulos, vai ter uma receita adicional por esse benefício ambiental cogerado.”

Para que a emissão do CBio ocorra, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) está estudando, junto com as entidades do setor sucroenergético, como ocorrerá o processo de certificação dos produtores. A resolução estabelecendo esses parâmetros deve ser publicada em 2019.

“Cada produtor, cada fábrica de biodiesel terá que se certificar. Vai haver uma ferramenta chamada ‘Renovacalc’. A usina vai abrir essa calculadora e lançar os dados do seu processo produtivo, que serão validados por uma empresa de auditoria. A partir daí, será possível saber qual a redução de carbono da planta industrial”, diz Rodrigues.

Segundo a Unica, a emissão e o controle do CBio estão sendo discutidos pelo governo federal, juntamente com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e as bolsas de valores. A primeira versão dessa regulamentação deve ser divulgada até o final de 2018.

“Para verificar a meta de eficiência ambiental do produtor, será feita uma análise do ciclo de vida. Eles analisarão todo o processo de produção do biocombustível, desde o fertilizante utilizado na lavoura, até o consumo no veículo, e calcular quanto de emissão de carbono foi realizada”, diz.

Energia Elétrica

Rodrigues afirma ainda que a Renovabio também deve estimular indiretamente a produção de energia elétrica a partir do bagaço da cana-de-açúcar. Isso porque, a usina que gera eletricidade não consome de outra fonte mais poluidora, como as termelétricas, por exemplo.

“Em outras palavras, se eu tiver duas usinas idênticas, com o mesmo perfil de produção, uma cogera e exporta para a rede e a outra só cogera para uso próprio, essa que exporta vai ter uma nota de eficiência energética-ambiental maior e vai poder emitir mais CBio”, afirma.

Dados da Unica apontam que, atualmente, a capacidade instalada a partir da biomassa da cana é de 11,3 mil megawatts, superior à potência da usina Belo Monte. Além disso, 209 das 367 usinas em operação comercial exportam eletricidade para a rede.

Por outro lado, existe uma preocupação do setor em relação à expansão da bioeletricidade: em 2010, a biomassa representou 32% do crescimento anual da capacidade instalada, mas no ano passado esse índice caiu para 7% e deve reduzir para 1% este ano.

“A interligação do mercado energético, de alguma forma, é um entrave ainda. Na hora que você tiver isso totalmente liberado, é muito mais viável financeiramente”, diz Paulo Octávio de Almeida, vice-presidente da Reed Exhibitions, organizadora da Fenasucro & Agrocana.

Almeida afirma que as questões políticas ficam sobrepostas às discussões ambiental e econômica, e prejudicam a expansão da bioeletricidade. Para o vice-presidente da Reed, a bioenergia precisa ser planejada lado a lado com o setor hidroelétrico.

“Você precisa ter uma visão pública definida e as coisas vão acontecer. Hoje, não tem. Só tem esse lado de ficar achando que isso vai beneficiar um, ou outro. A questão é muito mais ampla. Quem se beneficia em última instância é a sociedade como um todo.”

Gerente de bioeletricidade da Unica, Zilmar de Souza ressalta que há exatos dez anos o setor canavieiro comercializou 31 projetos nos leilões regulados promovidos pelo governo federal. Em abril desse ano, no entanto, apenas dois empreendimentos foram leiloados.

“Esse é um ponto importante: pensar não só o lado do biocombustível, mas também o lado do setor elétrico. Estimular a contratação da bioeletricidade de forma robusta. Não apenas dois empreendimentos, como aconteceu agora, que é uma demanda para 2022”, diz.

Souza explica que o planejamento de conexão da rede é fundamental, já que o custo de interligação da usina com a concessionária de energia elétrica é elevado, podendo chegar a R$ 300 milhões, dependendo da localização da indústria e dos equipamentos que ela dispõe.

“A partir de 2020, haverá uma previsão de investimento no setor por conta da expansão do etanol, provocada pela Renovabio. É muito importante, por parte do governo, a sensibilidade e a possibilidade de contratação de forma mais robusta da bioeletricidade”, conclui.

Fonte: G1

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