O déficit da balança comercial da indústria de transformação se aprofundou no ano passado. O saldo negativo avançou de US$ 3,22 bilhões em 2017 para US$ 25,16 bilhões em 2018. O saldo negativo do ano passado é resultado de US$ 138,47 bilhões em exportações e US$ 163,63 bilhões em importações. Os dados são do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

O déficit caminha para o nível pré-crise, quando chegou a US$ 63,66 bilhões, em 2014, o pior resultado desde 2000, destaca Rafael Cagnin, economista do Iedi. A crise argentina e a desaceleração do comércio mundial, fatores que afetaram o embarque de industrializados no ano passado, devem se manter em 2019, ao menos na primeira metade do ano. Eventual redução de alíquotas de importação, avalia, pode acelerar o processo de deterioração.

O desempenho dos produtos básicos, com superávit comercial recorde de US$ 83,82 bilhões, destaca Cagnin, foi o que garantiu à balança brasileira total no ano passado o segundo maior resultado positivo da história do país.

 

Segundo dados do governo federal, em 2018 os produtos industrializados, incluindo manufaturados e semi-manufaturados, representaram 48,8% dos embarques brasileiros. Essa fatia foi de 65,8% em 2007, último ano em que a indústria de transformação teve superávit comercial, segundo a série história do Iedi. O saldo positivo naquele ano foi de US$ 18,93 bilhões.

O tamanho do déficit na indústria da transformação em 2018 mostra clara inversão de desempenho dos saldos comerciais, diz Cagnin. "A trajetória de recuperação foi interrompida por fatores internos e externos."

No mercado doméstico, diz ele, há desempenho importante das importações. As compras externas de bens da indústria de transformação se aceleram, de 9,7% em 2017 para 20,1% em 2018. "A despeito da fragilidade da recuperação econômica, as importações dobraram o ritmo, o que não é pouca coisa." Em compensação, diz ele, a exportação mostra desaceleração, caindo pela metade. Segundo dados do Iedi, o embarque de bens industriais caiu de 9,2% em 2017 para 4,1% no ano passado.

O avanço do déficit, diz Cagnin, é expressivo e disseminado entre os diversos setores, o que fica evidenciado com a evolução do segmento de média-baixa intensidade tecnológica, que, superavitário em 2016 e 2017, ficou com saldo comercial negativo no ano passado. Formada por ramos como os de produtos metálicos, construção naval, produtos de petróleo e borracha e plásticos, essa indústria passou de um saldo positivo de US$ 858 milhões em 2017 para um déficit de US$ 5,39 bilhões no ano passado.

O economista destaca também o segmento de média-alta intensidade tecnológica, que "voltou a andar para trás, com trajetória de melhora interrompida". Responsável por 26,3% das exportações da indústria de transformação, o segmento de média-alta intensidade expandiu o déficit comercial de US$ 26,3 bilhões em 2017 para US$ 38,2 bilhões no ano passado.

Entre os setores que puxaram a maior deterioração nesse pedaço da indústria, estão os segmentos de máquinas equipamentos mecânicos, com saldo negativo que cresceu de US$ 4,3 bilhões em 2017 para US$ 6,4 bilhões no ano passado. Também contribuiu o setor de produtos químicos, excluídos os farmacêuticos, que aumentou o déficit de US$ 20,2 bilhões para US$ 25,2 bilhões em igual período.

O grande destaque fica para a troca de sinal do ramo de automóveis, reboques e semi-reboques, no qual o superávit de US$ 3,4 bilhões foi substituído por um déficit de US$ 752 milhões, sempre de 2017 para 2018. O segmento de automóveis chegou a ter saldo positivo por dois anos consecutivos, após um déficit de US$ 3,5 bilhões em 2015.

Tradicionalmente superavitários, os ramos de baixa tecnologia também contribuíram para a deterioração do saldo comercial da indústria de transformação ao encolher o saldo positivo de US$ 40,1 bilhões para US$ 37,9 bilhões. A indústria de baixa intensidade tecnológica é formada, entre outros, pelos ramos de alimentos, além de madeira, papel e celulose e de têxteis, couros e calçados.

Entre os principais fatores externos que afetaram a exportação de bens industriais, está a crise argentina, diz Cagnin. Segundo dados do governo federal, em 2017 um quinto dos manufaturados exportados pelo Brasil foi destinado ao país vizinho. No ano passado, a fatia caiu para 15,6%. Em 2018, os argentinos compraram US$ 13,54 bilhões em bens manufaturados brasileiros, valor que representa recuo de 17,2% em relação ao ano anterior.

Para Cagnin, a exportação brasileira de bens industriais ainda deve continuar a sofrer os efeitos da crise argentina em 2019, ao menos na primeira metade do ano. "Por mais que a economia de lá melhore, a recuperação deve ser um pouco mais devagar." Adicionalmente, no cenário internacional, diz o especialista, o comércio pode passar por nova desaceleração. A perspectiva de um comércio mundial em ritmo mais desacelerado dificulta a exportação brasileira e também acirra a concorrência da indústria doméstica em relação aos importados, avalia ele.

A indústria, que durante a recessão da economia brasileira se voltou para o mercado externo, agora busca novamente o mercado doméstico, num movimento que também contribui para um déficit comercial maior. "Sem levar em consideração que é muito provável que teremos um redução de alíquotas de importação", diz ele. Para ele, medidas de abertura abertural precisam ser graduais e adotadas somente com um programa que garanta maior competitividade à indústria brasileira. A redução de alíquotas tem sido levantada por integrantes da equipe econômica do presidente Jair Bolsonaro.

Medidas de ampliação da competitividade da produção nacional, segundo Cagnin, demoram a dar resultados. "A reforma tributária é fundamental nesse programa, mas a negociação é lenta, a aprovação, também, e os efeitos serão mais diluídos no tempo", exemplifica.

Enquanto uma reforma tributária não vem, um dos fatores que poderiam amenizar essa perspectiva de elevação de déficit comercial na indústria de transformação, afirma Cagnin, seria a recomposição do Reintegra, benefício fiscal que devolve ao exportador parte dos tributos pagos na produção do bem embarcado. O que pode ajudar a indústria também, diz o economista, é o câmbio, pela ausência de um movimento de apreciação forte do real. Se o quadro se mantiver, avalia, isso pode amenizar o efeito de redução de alíquotas de importação num cenário de recuperação do mercado doméstico.

Fonte: Valor

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