No último texto neste espaço, questionei se o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) teria força suficiente para enfrentar os lobbies que tentarão resistir a todo custo as suas reformas liberais.

Citei o exemplo dos industriais que foram até sua casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, pedindo que ele desistisse de acabar com o ministério da Indústria e Comércio (Mdic) e que —pelo menos até aquele momento— haviam sido atendidos.

Nesta terça-feira (30), a situação mudou. Paulo Guedes, “guru” econômico de Bolsonaro, contrariou o que o próprio presidente havia dito pelas redes sociais e confirmou à imprensa seu “superministério” da Economia, que vai reunir Fazenda, Planejamento e Desenvolvimento.

 

Não bastasse isso, atacou frontalmente o lobby industrial: “Vamos salvar a indústria apesar dos industriais”, afirmou.

Segundo o economista, o Mdic se transformou numa “trincheira”.

“Eles estão lá com arame farpado, lama, buraco, defendendo às vezes protecionismo, subsídio, desonerações setoriais, que prejudicam a indústria brasileira”.

As declarações provocaram um enorme mal-estar na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em Brasília onde naquele mesmo fim de tarde se reuniram representantes de diversos setoresa espera do atual mandatário, Michel Temer, a quem prestariam uma homenagem.

Nas rodas de conversa, o adjetivo mais brando para se referir ao futuro ministro era “descortês”. Os barões da indústria, contudo, não partiram para a briga. A CNI soltou uma nota formal e ninguém falou com a imprensa.

O que não quer dizer que estejam conformados. Em conversas reservadas, dizem que voltarão a recorrer ao futuro da chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que intermediou a primeira conversa com Bolsonaro, e que tentarão outros caminhos para chegar ao presidente.

Eles estão surpresos com o comportamento de Bolsonaro. Sabiam de sua agenda liberal, mas não esperavam um confronto aberto, já que ele foi deputado por 27 anos e teoricamente conhece os meandros de Brasília. Se esqueceram, contudo, que Guedes nunca atuou no governo e parece não estar nem aí para nada disso.

Não resta dúvida que o “superministro” acumulou muita força. Ele se tornou o fiador de Bolsonaro em um momento em que ninguém acreditava nele. Se Guedes for contrariado e decidir sair, ocorre um cataclisma no mercado financeiro, com dólar subindo e bolsa caindo.

Bolsonaro sabe disso, já que se valeu bem do seu “posto Ipiranga” para ganhar as eleições. Mas nunca é demais lembrar que não foi Guedes que recebeu 55% dos votos nas eleições presidenciais. Com o passar dos meses, continuará tendo o mesmo vigor se continuar fazendo inimigos nessa velocidade?

Fonte:  Folha SP

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