O mercado mundial de energia se prepara para um aumento nos preços do petróleo diante do agravamento dos problemas de produção na Venezuela, justo quando as exportações do Irã deverão cair devido às novas sanções dos EUA após o governo Trump se retirar do acordo nuclear com o país.

Uma queda na oferta venezuelana e iraniana pode criar o "coquetel perfeito" para um petróleo a US$ 100 o barril no próximo ano ou antes, dizem analistas da corretora londrina PVM. O petróleo tipo Brent atingiu quase US$ 79 por barril ontem, o que pode elevar a pressão sobre a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e a Rússia para que cancelem o acordo de produção firmado há 18 meses para reduzir a oferta.

As exportações venezuelanas de petróleo caíram 40% em um ano, para 1,1 milhão de b/d em abril, de acordo com dados do site Kpler, que monitora navios petroleiros.

 

E podem cair mais ainda, em meio aos problemas vividos pela petroleira estatal PDVSA. Russ Dallen, do banco de investimentos Caracas Capital, disse que a empresa é alvo de "uma avalanche" de ações judiciais por dívidas não pagas.

A ConocoPhillips, empresa americana de prospecção e exploração de petróleo, obteve recentemente decisão judicial favorável dando-lhe o controle sobre os ativos de refino e armazenamento pertencentes à PDVSA no Caribe, um centro de exportação de petróleo bruto venezuelano para a Ásia.

Isso resulta de uma multa de arbitragem no valor de US$ 2 bilhões pela estatização de projetos da Conoco na Venezuela em 2007. A situação levou a PDVSA a suspender o armazenamento de petróleo e a exportação a partir do instalações caribenhas e a ordenar o retorno de navios petroleiros a águas nacionais para evitar sua apreensão.

"Isso mostra quão devastador pode ser, para as exportações venezuelanas de petróleo, não cumprir decisões de instâncias de arbitragem ou não pagar valores devidos", disse Francisco Monaldi, do Instituto Baker de Política Pública da Rice University. "Isso vai piorar a situação já catastrófica".

Um executivo do setor disse não estar claro se a Conoco detém a posse dos bens arrestados. A PDVSA está contestando o tribunal e tentando se esquivar de cumprir a sentença. "No curto prazo, isso certamente terá impacto tanto nas exportações venezuelanas quanto nos mercados de petróleo".

Pelo menos 150 mil b/d de petróleo venezuelano foram exportados por meio das instalações alvo de ações da Conoco. Mas não só esses suprimentos que estão ameaçados, pois o efeito colateral de possíveis arrestos e consequentes atrasos em portos venezuelanos poderão resultar em maiores quedas nas vendas externas.

Vários petroleiros usados pela PDVSA foram apreendidos por autoridades locais por inadimplência envolvendo dívidas passadas. Mas agora uma nova rodada de reivindicações de subcontratados da empresa poderá estrangular ainda mais as exportações.

A queda na receita com exportação de petróleo ocorre às vésperas da eleição presidencial de 20 de maio, na qual Nicolás Maduro busca um segundo mandato no cargo, apesar da crise econômica e social.

O país, que tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, vive uma recessão devastadora e tem dívidas consideráveis a pagar, ao mesmo tempo em que enfrenta outros casos de arbitragem após uma onda de estatizações promovidas pelo presidente anterior, Hugo Chávez.

O grupo canadense de engenharia e construção SNC-Lavalin entrou com ação judicial em Nova York, na semana passada, por não pagamento de uma dívida, o que poderá permitir que se aproprie de ativos no valor de US$ 25 milhões. A reivindicação da SNC é pequena, mas outras poderão resultar de ações de detentores de instrumentos financeiros idênticos no valor de mais de US$ 2 bilhões.

Dallen, da Caracas Capital, disse que a SNC e outros detentores de títulos poderão até antecipar-se à ConocoPhillips, na fila de arresto de ativos da PDVSA.

Essas reivindicações poderão multiplicar-se rapidamente, se a iniciativa da SNC for seguida por detentores de cerca de US$ 23 bilhões em eurobônus da PDVSA, disse Mark Walker da consultoria Millstein & Co, de Nova York, que representa uma comissão de credores da PDVSA e da Venezuela.

Mas ele alertou que uma onda de ações judiciais e arresto de ativos poderá ser contrária aos interesses dos credores. "O fato é que a PDVSA não tem dinheiro", disse. "Os credores precisam cooperar".

Ele disse que a ConocoPhillips faria bem em firmar acordo com a PDVSA que a permitisse continuar exportando e obtendo receita.

O risco é que a PDVSA pode não estar mais atuando de modo racional. No mês passado, dois executivos da Chevron, que continua operando na Venezuela, foram presos e acusados de traição após se recusarem a assinar contratos de fornecimento a preços excessivos.

Até o ano passado, diz Dallen, a PDVSA procurava manter seus credores engajados em ajudá-la a colocar seu petróleo no mercado. Mas isso mudou em novembro, com a nomeação do general Manuel Quevedo para ministro do Petróleo e presidente da PDVSA, uma pessoa sem experiência no setor.

"Quevedo declarou guerra a todos", disse Dallen. "Isso é burrice. Eles são seus parceiros."

O maior perigo para os credores e para as exportações da PDVSA é que Quevedo possa fazer uso de um decreto presidencial de 12 de abril que lhe dá controle absoluto sobre o setor petrolífero, inclusive o poder explícito de declarar a falência da PDVSA.

Gary Ross, diretor de petróleo da S&P Global Platts, diz que as principais empresas de energia do Ocidente poderão reduzir ainda mais suas operações na Venezuela. "Há escassas de evidências de que a queda da produção vá diminuir."

Enquanto isso, embora o governo Trump já tenha imposto sanções financeiras de amplo alcance contra a Venezuela, um risco adicional seriam possíveis punições diretas contra o setor petrolífero.

Sanções contra exportações seriam, porém, um "movimento ousado", disse Ross. Seria difícil, para o governo americano, tolerar o risco de encarecimento substancial do petróleo.

Fonte: Valor

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