Num cenário em que União Europeia, Estados Unidos, Rússia e China ainda mantêm restrições às carnes do Brasil e posturas comerciais protecionistas voltam a ganhar força ao redor do mundo, o presidente da  Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, defende que, no governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), o Itamaraty seja mais “agressivo” em suas gestões para tentar abrir mercados e impulsionar as exportações do agronegócio.

“O Ministério das Relações Exteriores está um pouco distante das nossas necessidades. Não tem sido um ministério aguerrido. Falta mais agilidade”, afirmou Martins em entrevista ao Valor na semana passada na sede da entidade, em Brasília, onde elencou uma série de prioridades do setor para os próximos anos.

O presidente da CNA entende que é preciso que o governo federal assuma uma postura mais de negociador do que de diplomata quando o assunto for o acesso dos produtos agropecuários do país no mercado internacional. E disse acreditar que Bolsonaro vem sinalizando que montará um governo capaz de executar essa agenda. “Pelo menos ele está acenando que tem muita vontade de vencer os desafios”.

 

A CNA defende que o Brasil estabeleça acordos comerciais de foram a tornar a agropecuária nacional mais competitiva. E quer o foco nos principais mercados importadores de alimentos, como União Europeia, China, Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e México.

A medida consta no documento “O Futuro é Agro”, que reúne um conjunto de metas prioritárias para a confederação e outras 15 entidades do agronegócio até 2030 e foi entregue em sabatina aos presidenciáveis durante a campanha — Bolsonaro não compareceu ao encontro que marcou a entrega do documento aos postulantes do Planalto.

Martins também sustenta que a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimento (Apex-Brasil), que não é ligada ao Itamaraty, seja mais efetiva e objetiva na agenda voltada para alavancar os embarques de itens agropecuários para os mais diferentes mercados.

A CNA também pede que o novo governo apoie a aprovação no Congresso de uma Lei Plurianual para o agronegócio nos moldes da “Farm Bill” (lei americana), de forma que o orçamento voltado à agricultura seja condizente com o calendário dos anos-safra, aloque mais recursos para o programa de subsídios do prêmio rural, amplie o investimento público  na construção e finalização de obras de infraestrutura estratégicas para setor, promova parcerias com os Estados para garantir mais segurança no meio rural e blinde as verbas para a defesa agropecuária de  contingenciamentos.

Martins afirmou que há um clamor no segmento agropecuário para que o Ministério da Agricultura também mire cada vez mais uma agenda de modernização e redução da burocracia daqui para a frente. Assim, disse, o próximo comandante da Pasta precisará ser alguém comprometido com essa ideia, especialmente num momento em que o sistema sanitário brasileiro está sendo colocado em xeque ainda em decorrência de reflexos da Operação Carne Fraca.

“Se a gente continuar com um ministério antigo, permaneceremos com esses problemas, principalmente com países mais exigentes”, declarou o dirigente.

Dentro do pacote de medidas essenciais para o desenvolvimento da agropecuária brasileira, a CNA também defende que o próximo ministro da Agricultura tenha um perfil técnico — de preferência um produtor rural ou empresário com vivência na área. “Acho que político não deveria ser ministro agora. Muitos políticos perderam a eleição, então vamos alocar essas pessoas no ministério? Isso não seria correto”.

Fonte: Valor

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