As companhias petrolíferas vão em qualquer lugar onde haja petróleo, independentemente do regime político e da situação econômica do país. A máxima, que costuma ser dita por executivos da área petrolífera, pode ser constatada diante da grande expectativa dos executivos do setor com a 4ª rodada de leilões que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) realiza na próxima quinta-feira, dia 7, quando serão licitados quatro blocos do pré-sal. O interesse se justifica pela expectativa de as áreas terem, pelo menos, cinco bilhões de barris de petróleo.

Executivos e especialistas são unânimes em dizer que o pré-sal brasileiro é hoje a área mais atrativa do mundo para exploração de petróleo. Se os quatro blocos forem arrematados, a União terá uma arrecadação de R$ 3,2 bilhões em bônus de assinatura. E como será pelo regime de partilha, a União garante o recebimento futuro de uma parcela da receita (óleo/lucro) da futura produção. Esta parcela que será da União é determinante para a escolha do vencedor dos blocos.

As maiores empresas petrolíferas do mundo estão inscritas para participar do leilão, no qual serão ofertados três blocos na Bacia de Santos - Uirapuru e Três Marias - e a área de Dois Irmãos e Itaimbezinho, na Bacia de Campos, todos no pré-sal. Todas as quatro áreas são consideradas excelentes por especialistas, que estimam que os blocos podem conter, pelo menos, cinco bilhões de barris de óleo recuperável.

 

Por isso, analistas do setor acreditam que os últimos acontecimentos envolvendo a intervenção do governo nos preços dos combustíveis não afetarão o interesse dos investidores nas áreas que serão ofertadas.

O diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Décio Oddone, afirma não ter dúvidas de que o leilão será um sucesso. Ele acredita que, pela primeira vez em um leilão de áreas no pré-sal, todos os blocos serão arrematados.

- Tenho certeza de que o leilão será um sucesso. Primeiro, porque as áreas ofertadas são muito boas e, em segundo lugar, porque os investimentos são de longo prazo, e o Brasil tem a tradição de respeitar contratos - destacou Oddone.

Carlos Maurício Ribeiro, do Vieira Rezende Advogados, destacou que as gigantes petrolíferas enxergam o pré-sal como sendo a área de exploração marítima mais atrativa no mundo. Além disso, a geopolítica internacional indica que os preços do petróleo deverão continuar acima de US$ 70 o barril. Assim, para Ribeiro, a interferência do governo nos preços do diesel e a discussão em relação à política de preços da Petrobras não reduzirão o interesse no leilão:

- Esses fatos deverão ter pouca ou nenhuma influência nas decisões das petroleiras de investir nessas áreas do pré-sal, pois tais companhias costumam operar em ambientes políticos e regulatórios bem mais complicados que o brasileiro. O mesmo vale para a própria Petrobras, que já exerceu seu direito de preferência em três dos quatro blocos ofertados.

O secretário-executivo do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), Antonio Guimarães, também acredita que o leilão será bem disputado, porque o pré-sal brasileiro é a área mais cobiçada entre as petroleiras de todo o mundo. Ele também defende que o fato de o Brasil, independentemente de crises políticas ou econômicas, ter a tradição de respeitar contratos deve pesar positivamente:

- Nada mudou na análise de risco Brasil, os ativos são muito atrativos, e crises pontuais não afetam essa atratividade. Além disso, o Brasil respeita os contratos. Acredito que vamos ter uma boa competição no leilão.

O geólogo Pedro Zalán, da ZG Consulting in Petroleum Exploration, também imagina que o leilão será bem concorrido entre as 16 empresas que estão inscritas. A disputa para arrematar os blocos será baseada em quem oferecer à União o maior percentual de óleo/lucro, que é a parcela do lucro após a amortização de todos os investimentos e custos do projeto.

‘Nada mudou na análise de risco Brasil, os ativos são muito atrativos, e crises pontuais não afetam essa atratividade.’

Zalán destaca que o mais cobiçado dos blocos certamente será o Uirapuru, que tem o maior bônus, de R$ 2,65 bilhões, e o maior percentual de óleo/lucro mínimo exigido, que é de 22,18%. Este bloco, segundo Zalán, tem um potencial de petróleo recuperável que varia entre dois bilhões a três bilhões de barris, considerando um fator de recuperação - quanto que é possível retirar do petróleo existente no subsolo com as tecnologias disponíveis — da ordem de 30%:

- As quatro estruturas são excelentes, com perspectivas ótimas de conter volumes de óleo recuperável muito bons. É o caso do bloco de Uirapuru, que está a norte do Carcará, no qual a Statoil está apostando todas as fichas.

Já no bloco de Três Marias, a leste do Uirapuru, o geólogo calcula que poderá conter até 600 milhões de barris de óleo recuperável, considerando as reservas estimadas in situ (total de petróleo existente nos reservatórios). Outra estrutura que Zalán considera muito atraente em termos geológicos é a de Dois Irmãos, tem volume recuperável de óleo estimado em pelo menos 720 milhões de barris.

Nesses três blocos, a Petrobras exerceu o chamado direito de preferência, ou seja, se não vencer a disputa dessas áreas, poderá entrar no consórcio vencedor no qual deterá 30% e será operadora. Já em Itambezinho, as perspectivas são de ter cerca de 510 milhões de barris de óleo recuperável. Mas, neste caso, o risco geológico, segundo Zalán, é maior, o que reduz um pouco o interesse pela área.

— O grupo vencedor pode ter que aceitar a Petrobras como parceira com 30% e como operadora. E, talvez, muitos queiram fazer a proposta já associados com a Petrobras. Mas, apesar disso, espero uma boa disputa — observou Zalán.

Para o geólogo, o interesse nas áreas deve ser grande também porque os preços do petróleo estão elevados e, além dos blocos ofertados serem muito atrativos, os investimentos são de longo prazo. Mas Zalán admite que a atual discussão sobre preços dos combustíveis da Petrobras pode aumentar as dúvidas dos empresários quanto ao futuro do setor.

- Sempre acaba se colocando em dúvida se, no futuro, o governo do Brasil, seja ele qual for, poderá mudar as regras do jogo em exploração e produção, e intervir, assim como está fazendo neste momento na distribuição de combustíveis. Mas as grandes companhias (as majors) não se preocupam muito com isso. O que preocupa é a instabilidade política — destacou Zalán.

Para Felipe Perez, da consultoria internacional IHS Markit, os últimos acontecimentos no Brasil envolvendo a política de reajuste de preços da Petrobras não devem afetar o leilão porque as questões envolvem a área de distribuição, enquanto o leilão é para o setor de exploração e produção.

- Ainda é cedo para avaliar os efeitos do que está acontecendo, mas certamente o país perde credibilidade.

O advogado Rafael Baleroni, advogado da Cescon Barrieu, também não acredita que a atual crise política e econômica envolvendo a política de preços da Petrobras, que levou até a renúncia de Pedro Parente da presidência da Petrobras, vá tirar o interesse das petroleiras na rodada do pré-sal. Segundo ele, além de o Brasil ter tradição de respeitar contratos, o risco político no Brasil é já avaliado pelas empresas que vêm investir no país, assim como em qualquer outro lugar do mundo:

- Não vai diminuir o interesse e não vai afetar a atratividade desse leilão.

Na opinião de Baleroni, toda essa discussão traz certa apreensão para as empresas que querem ser parceiras da Petrobras em projetos. Isto porque possíveis congelamentos de preços dos combustíveis poderão reduzir a capacidade de investimentos da estatal:

- O que traz certa preocupação é o risco de, com essas interferências do governo nos preços dos combustíveis, no longo prazo a Petrobras não ter receita suficiente para fazer frente aos investimentos futuros.

Alexandre Calmon, da Tauil & Chequer Advogados, completa que quem vem investir no Brasil na exploração e produção de petróleo não está olhando o curto prazo nem se preocupa coma a questão dos preços dos combustíveis:

- A percepção que se tem do Brasil para investimentos é que o país é muito atrativo para exploração e produção de petróleo. Não há outra área no mundo tão atrativa quanto o pré-sal brasileiro. Não sentiremos impacto algum no leilão.

Fonte: O Globo

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