A escalada da tensão comercial entre as grandes potências econômicas mundiais e a ameaça de um retorno ao protecionismo aumentam o risco de comprometer o forte crescimento do comércio mundial, previsto para 4,4% este ano, advertiu o diretor geral da OMC ( Organização Mundial do Comércio), o brasileiro Roberto Azevêdo.

"O forte crescimento do comércio que observamos hoje será vital para manter o crescimento e recuperação econômica e para respaldar a criação de empregos", afirmou Azevêdo durante a divulgação das previsões da OMC para 2018.

"No entanto, estes progressos importantes podem ser rapidamente comprometidos se os governos recorrerem a políticas comerciais restritivas, em particular no âmbito de um processo de medidas e contramedidas que poderia levar a uma escalada incontrolável", completou.

 

A OMC elevou de maneira considerável a previsão de crescimento do volume de comércio mundial para 2018, a 4,4% (com uma margem que vai 3,1% a 5,5%), contra a projeção anterior de 3,2%.

Contudo, estas previsões não incluem a possibilidade de uma escalada dramática das restrições comerciais, disse Azevêdo. "Os riscos são altos".

GUERRA COMERCIAL

Os Estados Unidos e a China estão envolvidos há um mês em um conflito comercial provocado pela decisão do governo de Donald Trump de impor taxas sobre as importações de aço e alumínio em nome da segurança nacional.

Vários países foram isentados, mas não a China. Em represália, Pequim anunciou uma série de medidas punitivas.

"Politicamente vemos o prenúncio de uma guerra comercial", mas "tecnicamente ainda não chegamos a este estágio, uma vez que um certo número de medidas anunciadas não foram aplicadas", declarou Azevêdo.

Segundo a OMC, alguns sinais indicam que a escalada das tensões comerciais já poderia afetar a confiança das empresas e decisões de investimentos.

"Uma fratura nas relações comerciais entre os principais protagonistas faria descarrilar a substancial recuperação dos últimos anos e arriscaria comprometer o emprego", advertiu Azevêdo, indicando que os efeitos seriam mundiais.

Nesta quarta-feira (11) a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, também advertiu para os riscos do protecionismo.

"A história mostra que restrições importantes afetam a todos, especialmente os consumidores mais pobres", disse Lagarde. "Não apenas elas [as restrições] levam a produtos mais caros e escolhas mais limitadas, mas também impedem que o comércio desempenho seu papel essencial de ampliar a produtividade e disseminar novas tecnologias".

CRESCIMENTO

A taxa de crescimento do comércio em 2017 foi de 4,7%. Trata-se da taxa mais elevada desde 2011, um crescimento ligado principalmente a fatores conjunturais, em particular o aumento das despesas em investimentos e consumo, segundo a OMC.

A entidade afirma que a boa saúde do comércio é estimulada por um crescimento econômico mais forte em todas as regiões, devido ao aumento dos investimentos e uma política orçamentária expansionista.

Em 2019, o crescimento do comércio deve alcançar 4%.

No entanto, a OMC também espera que a atividade econômica em 2019 sofra a repercussão da escalada das restrições comerciais, o que poderia se traduzir em cenários mais negativos.

Além do aumento do sentimento anti-comércio e da maior propensão dos governos a recorrer a medidas restritivas ao comércio, a OMC alerta para um aumento inesperado da inflação em um ou mais países.

Isso poderia levar as autoridades monetárias a elevar subitamente as taxas de juros e desacelerar o crescimento econômico, observa a OMC.

Fonte: Folha SP