Os estoques de passagem privados de café do Brasil somavam 9,866 milhões de sacas de 60 quilos em 31 de março deste ano, 27,4% abaixo das 13,589 milhões de sacas na mesma data de 2016, conforme levantamento divulgado ontem pela Conab.

Os dados sobre os estoques de passagem de café referentes à safra 2016/17, bastante aguardados pelo mercado, foram recebidos com uma ponta de ceticismo pelos exportadores do produto. O volume nos armazéns é o menor desde a safra 2011/12.

Segundo a Conab, do total dos estoques, 8,871 milhões de sacas eram de café arábica - um ano antes, somavam 12,470 milhões de sacas. Os estoques de café conilon totalizavam 995 mil sacas em 31 de março, também abaixo das 1,119 milhão de sacas existentes em igual data de 2016.

O levantamento da Conab para estimar o estoque de passagem no fim da safra 2016/17 foi realizado entre março e junho deste ano. É a terceira queda consecutiva dos estoques privados de café no país levantados pela Conab. E a mais expressiva delas. Ainda que gerem questionamentos, os dados corroboram a percepção do setor cafeeiro de que houve uma forte queda nos estoques do grão no país.

Ontem, o presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) Nelson Carvalhaes mostrou dúvidas em relação aos números da Conab e defendeu mais investimentos nos levantamentos feitos pela estatal.

"O que chama a atenção é que a conta não fecha", disse. Considerando os números de consumo interno e das exportações entre abril e junho deste ano, a demanda ficaria ao redor de 12,2 milhões de sacas de café, segundo o Cecafé. Assim, estariam "faltando" cerca de 2,5 milhões de sacas para suprir esse consumo se os números da Conab estiverem corretos.

De acordo com a Conab, foram pesquisados 931 armazenadores com a emissão de 1.495 boletins. Do total de boletins emitidos, apenas 575 foram preenchidos e 920 não preencheram as informações.

A queda expressiva nos estoques de arábica pode ser explicada pelo fato de que a menor oferta de conilon na safra 2016/17 levou torrefadoras do país a utilizar mais arábica em seus blends.

Para Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), os números da Conab indicam um mercado "apertado" para o café, como a indústria já vinha apontando. "Pode ser que os volumes não sejam suficientes para atender a demanda da exportação e do mercado doméstico", disse.

Por seu raciocínio, considerando uma colheita de 45,5 milhões de sacas na safra 2017/18 mais o estoque de 9,8 milhões, haveria uma disponibilidade de cerca de 55 milhões de sacas de café. Como a exportação de café deve ficar em torno de 33 milhões de sacas e o consumo doméstico é de 21 milhões de sacas, haveria uma sobra de apenas 1 milhão de sacas. "É um mercado justo", reiterou.

Fonte:  Valor