O graneleiro construído na Coreia do Sul, Stellar Daisy, naufragou no Atlântico Sul, com 260 mil tons de minério de ferro, embarcadas no terminal da Vale, na Ilha da Guaíba, Rio de Janeiro.

Uma das causas possíveis do acidente é a liquefação do granel sólido (minério) devido à umidade, que coloca em risco a embarcação.

Nos últimos 30 anos ocorreram pelo menos 24 acidentes marítimos, com mais do que 177 mortes, causados por tal problema, que consiste na transformação do estado sólido ao liquefeito devido a um aumento de poro-pressão da água e redução da tensão efetiva entre as partículas sólidas, que decorre da brusca aplicação de uma carga de origem estática ou dinâmica.


A liquefação de minério, resultante da mudança de carga e perda de estabilidade, há décadas vêm sendo uma das principais causas de acidentes marítimos. Tal problema ocorre, em parte, pela ineficaz compliance dos embarcadores, por meio de teste e exigências de certificação para que a carga seja embarcada somente se a umidade é suficiente baixa para evitar que ocorra a liquefação durante a viagem.

Quando trabalhei na Vale do Rio Doce, em viagens triangulares Brasil-Europa-EUA-Brasil, como piloto a bordo de navios graneleiros, cautelas eram tomadas para evitar tal fenômeno.

É preciso observar o Limite de Umidade Transportável (TML), para que a estabilidade do navio seja afetada, em face do adernamento e naufrágio. Medidas devem ser tomadas (cargo claims) para proteger o interesse da carga.

Last position do Stellar Daisy

Em pesquisa que realizei sobre o histórico das vistorias, foi realizado uma Port State Controle em Tianjin, na China, em 7.02.2017, e foram encontradas seis deficiências, entre as quais problemas relativos à Prevenção de Poluição - Marpol - e estanqueidade. O navio foi construído em 1993, portanto, com 20 anos.

Brasil, Argentina e Uruguai fazem buscas. Três botes foram encontrados, alguns estavam virados. Navios mercantes auxiliaram as buscas e resgataram dois tripulantes de nacionalidade filipina, que contaram que a embarcação se partiu. Manchas de óleo avistadas na área são um sinal de que o navio pode ter afundado.

Os outros tripulantes ainda não foram encontrados. Estavam a bordo 24 pessoas; eram 16 filipinos e oito coreanos. O Stellar Daisy, é um navio de grande porte com 321 m de comprimento.

A Marinha e a Aeronáutica do Brasil estão auxiliando as buscas. Autoridades brasileiras receberam informações de que ventava muito na hora do acidente e que a água do mar invadiu a embarcação. No dia 25 de março, o navio partiu rumo à China.

Do litoral do Rio, o cargueiro deveria atravessar o Oceano Atlântico em direção à África do Sul. Na sexta-feira (31), a tripulação fez um chamado de emergência. Informações de um sistema de rastreamento da Marinha do Brasil indicam o local provável, 3.700 km a leste do porto de Montevidéu.

A dona do navio divulgou um comunicado. A operadora sul-coreana Polaris Shipping pediu desculpas aos familiares e expressou consternação e sentimento de culpa. A empresa disse que está empenhada nas operações de busca e manteve a esperança de resgatar todos os tripulantes com vida. A investigação do caso será feita pelo Uruguai com apoio de outros países.
Como marinheiro, lamento pelas vidas perdidas e familiares dos marítimos. Vamos aguardar o resultado das buscas e do salvamento.



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