O impacto da logística para o setor de óleo e gás e a perspectiva de investimentos em refino, dois painéis de debates realizados dia 26 de setembro de 2018, na programação da Rio Óleo e Gás, apresentaram uma visão complementar sobre a dimensão dos desafios. Na logística, os transportes demandam investimentos de R$ 1,7 trilhão para solucionar gargalos nos portos e reduzir a dependência do modelo rodoviário. O cenário para investimentos em refino vive a incerteza da interferência nos preços, enquanto isso a importação de derivados é a solução de curto prazo e exige investimentos nos portos e ampliação da oferta nos modais ferroviário e marítimo.

 

O painel sobre os impactos na logística, com moderação de Letícia Andrade, socia diretora do escritório Queiroz e Maluf advogados, foi debatido por Ricardo Catran, da Ultracargo (Grupo Ultra, também acionista da Ipiranga); Ricardo Mussa, da Raízen (associação entre a Shell e a Cosan, do grupo Ometo, acionista da Rumo Logística, operador ferroviário) e Felipe Kury ,da ANP. Na plateia Décio Oddone, diretor geral da ANP, participou ativamente complementando informações.

O painel investimentos em refino, com moderação de Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, contou com a participação de Décio Oddone, da ANP; Arlindo Moreira Filho, gerente geral de refino da Petrobras e Pedro Medeiros do Citi Group. Um dos resultados curiosos é a recorrência do conceito de que a Petrobras exerce um monopólio de fato no setor de refino e abastecimento, apesar da participação de outros investidores ser permitida pela legislação.

Logística

O cenário da demanda de investimentos em transportes foi apresentado baseado no documento propostas da CNT (confederação Nacional dos Transportes) aos candidatos de 2018. O documento mostra a necessidade de R$1,7 trilhão em investimentos com a seguinte distribuição: R$ 531,9 bilhão em ferrovias; R$ 496,1 bi em rodovias; R$ 147,5 bi em hidrovias fluviais; R$ 133,3 bi em portos; R$ 30,3 bi no modal aeroviário; R$ 25,6 bi em terminais de carga e R$ 297 bi em mobilidade urbana. Os problemas politico-institucionais são: fragilidade da política nacional de transportes; marco regulatório dos transportes incompleto e baixa interlocução com a iniciativa privada.

O monopólio de fato é garantido pela incerteza no preço dos combustíveis. A Raízen tem estudos realizados e dinheiro para investir em sistemas dutoviários. A incerteza do preço adia decisões dos acionistas. Enquanto parcerias e vendas de refinarias são anunciada pela Petrobras, a pratica é que 98% do refino é realizado pela estatal. A importação de combustíveis, estimada em cerca de 30% da demanda, é a alternativa num ambiente em que apenas 10 dos 60 portos tem estrutura de tancagem para suportar o aumento da importação que ocorrerá.

O sistema dutoviário completa 10 anos sem investimentos, com uma malha de 27 mil km, 10% da extensão de 2,7 milhões de quilômetros da malha dos EUA. A equação para a competitividade logística é maior capacidade da rede de dutos significa maior economia com estocagem e aumento da competitividade. O ideal é voltar à lógica que rege os quatro pilares da regulação: regulação; gestão do risco; previsibilidade e financiamentos. A questão para investimento em infraestrutura não é falta de capital, a iniciativa privada deseja investir, o freio é a incerteza, além do razoável, na formação de preços.

A Ultracargo investe na infraestrutura de tancagem nos portos. O cenário do mercado mundial é de oferta ampla de diesel e gasolina, excesso de capacidade de refino que contrasta com o prazo de sete a oito anos entre a decisão de investir em novas refinarias no Brasil ou finalizar projetos já existentes e o início de produção local. A refinaria é um negócio que contempla um ciclo de vida do investimento de 30 anos, período em que o mercado pode mudar. A Ultracargo estuda ampliar a tancagem de GNL para atender o aumento da oferta prevista.

Refino

 Em 2018 o Brasil importa em média cerca de 454 mil bpd de diesel e gasolina. O aumento da produção nas áreas do pré-sal contrasta com a redução de 30% na produção dos campos maduros, principalmente na Bacia de Campos. O mercado brasileiro de combustíveis é grande e está em expansão. Na Petrobras foi concluído um extenso trabalho de análise da situação do refino oferecendo soluções. Foram mobilizados mais de 300 técnicos nesse esforço e ficou claro que existem visões distintas dentro da empresa. Há uma divisão entre os que desejam que a Petrobras continue investindo no refino e os que consideram que a produção de petróleo é o negócio central da empresa e nessa direção os investimentos devem ser direcionados.

A análise do Citi Group considera a avaliação sobre o retorno do investimento em refino baseado na comparação com o preço do barril do petróleo Brent. Com a cotação do barril em de US$100, há dez anos, as margens do refino não apresentaram melhoria equivalente. A perspectiva em cinco anos é de déficit na oferta mundial do refino. Investimentos em novas refinarias são maiores na Ásia e no Oriente Médio e a atual oferta de derivados dos EUA tende a ser usada no atendimento ao seu mercado interno. A opção de investimento local em novas refinarias e conclusão de projetos existentes precisa ser considerada, para processar o aumento previsto da produção de petróleo no país. Para isso será necessário solucionar uma extensa lista entraves e obstáculos principalmente regulatórios e na logística de transportes que oneram a produção. 

Ivan Leão é diretor da Ivens Consult


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Ivan Leão

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Ivan Leão é jornalista, especializado em produção de informação estratégica. Dirige a Ivens Consult www.ivens.inf.br.

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