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Estado mínimo não é estado ausente

Estamos vivendo um momento único em nosso país, onde posições maniqueístas se consolidam, isolando grupos antagônicos em lados opostos sem espaço para diálogo e consenso. Coloca nesta mistura o tempero dos novos algoritmos das mídias sociais, onde você só enxerga quem pensa como você, e pronto, temos a receita perfeita para irmos a lugar nenhum.

Experimenta postar em um grupo de WhatsApp uma ideia política, econômica ou comportamental diferente do que a maioria naquele grupo acredita e veja o resultado, se você tiver estômago.  

As pessoas estão cansadas e nada como uma crise econômica para deixar todos com os nervos à flor da pele. Nos últimos anos, dos três pilares da nossa economia, superávit primário (esforço fiscal), câmbio livre e metas de inflação, dois ruíram estrondosamente. No meio de escândalos cinematográficos de corrupção em todos os poderes, os brasileiros ainda tiveram que assistir embasbacados ao governo propor o aumento de gastos como saída da crise.

 Diante de tudo isso, a reação natural é ser contra tudo que foi proposto antes e fazer tudo ao contrário na esperança de tentar algo novo. Joga essa hipótese naquele seu grupo fechado de WhatsApp ou Facebook e pronto, sua teoria foi validada. Só que não. Dois erros não fazem um acerto. O país precisa de políticas de Estado que sejam suprapartidárias e resistam a vários governos, como foi o Plano Real, que começou no governo Itamar e passou por FHC I, FHC II e Lula I.

Em encontros recentes com delegações britânicas e norueguesas no Rio de Janeiro, testemunhei o impressionante avanço tecnológico que esses países apresentaram. Mas o que também me chamou a atenção foi que ambas delegações trouxeram seus respectivos bancos de fomento dispostos a emprestar dinheiro para empreendedores brasileiros, desde que seus projetos tivessem conteúdo local, no caso 20% para os britânicos e 30% para os noruegueses. São políticas industriais de longo prazo de países altamente abertos, empreendedores e inovadores, cujos IDH estão entre os melhores do mundo. 

Empresas fortes e inovadoras com agências reguladoras fortes e independentes em um país onde educação, saúde e segurança estão garantidos é um bom começo. Mas estado mínimo não é estado ausente. Se entendermos também que fomentar e acolher as empresas é um dever do estado e que a estratégia de um país não pode mudar ao sabor do acaso, e aceitarmos que não devemos descartar tudo que escutamos porque foi o outro lado que propôs, temos um começo melhor ainda.

Cabe ao governo gerar um ambiente desburocratizado e com segurança jurídica, com regras claras que não mudam de quatro em quatro anos, para as empresas se estabelecerem e prosperarem, gerando mais empregos e mais arrecadação. Cabe também ao governo fazer com que essa arrecadação chegue aos mais desfavorecidos, criando condições de largada mais homogêneas para todos, único jeito da meritocracia finalmente poder ser aplicada em nosso país. 

O ícone do liberalismo e prêmio Nobel de Economia Milton Friedman defendia que jogar dinheiro de um helicóptero traria mais impacto positivo na economia do que subsidiar certos setores da indústria. Nesta linha de raciocínio liberal de estado mínimo, políticas como o helicóptero do Bolsa Família teriam mais impacto do que a Zona Franca de Manaus, por exemplo. Logicamente este cálculo não leva em conta o impacto social do pleno emprego. Segundo estudo da Associação Americana de Psicologia, pessoas sem ocupação têm o dobro de chance de sofrer distúrbios psicológicos como depressão e baixo autoestima. Acreditem, isto tem impacto na economia. 

O ponto é que não existe solução extremada e as verdades se misturam. Pela Ética de Aristóteles, a virtude está sempre no meio. Todos concordam que educação, saúde e segurança são obrigações do Estado. Mas outros pontos não podem ser negligenciados, como o combate implacável à corrupção ou a manutenção de um ambiente benéfico ao empreendedorismo.  

No fundo todos queremos a mesma coisa: um país melhor e mais justo onde possamos prosperar e sentir orgulho. Só discordamos as vezes de como chegar lá. Se concordarmos em discordar, a jornada vai ficar mais leve e muita coisa boa ainda vai surgir.

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