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Exportador compra da Argentina para conseguir abrir mercado no país

Produtos argentinos estão cruzando a fronteira não por necessidade de importação, mas como parte da estratégia de empresários brasileiros para abrir portas com o governo de Cristina Kirchner.

Industriais com negócios na Argentina relatam pressão do governo local para que as empresas que exportam para lá também comprem mercadorias argentinas como uma forma de compensação.

A política chamada de "uno por uno" ("um por um") leva, por exemplo, a fabricante de ônibus Marcopolo comprar produtos simples da Argentina, como material para a confecção de poltronas.

A indústria de máquinas agrícolas AGCO também aderiu ao modelo e gastou mais comprando peças da Argentina em 2012 do que ganhou exportando para lá.

A norma é informal e não está estabelecida em documentos oficiais. O governo Kirchner usa abertamente o método na tentativa de balancear a relação comercial com outros países.

Com o Brasil, vem dando certo. O saldo brasileiro nas trocas com a Argentina encolheu 69% no ano passado. O superavit passou de US$ 5,083 bilhões em 2011 para US$ 1,554 bilhão em 2012 -quando os embarques ao país vizinho recuaram 20,8%.

A prática já gerou situações insólitas com multinacionais que estão na Argentina. A BMW, por exemplo, firmou um acordo em que se comprometeu a exportar arroz. A Honda, de acordo com o governo, negociou a venda de estofamento para o Brasil.

A estratégia está disseminada entre as empresas que atuam no país vizinho, de acordo com José Augusto de Castro, da Associação de Comércio Exterior do Brasil.

"É como se fosse um jeitinho, embora não tenha nada ilegal. Mas foge aos parâmetros comerciais", declara.

Procuradas, outras companhias com negócios na Argentina preferiram não comentar o assunto.

O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, José Antonio Fernandes Martins, do grupo Marcopolo, diz que a entidade já recomendou que suas filiadas estudem a adoção dessa estratégia. "Colocamos [aos associados]: ou comprem matéria-prima ou comprem componentes", diz.

LEGITIMIDADE

Martins considera a tática argentina "legítima", já que, sem ela, o país ficaria "inadimplente". Mas diz que uma portaria oficializando o modelo iria ferir as regras do mercado comum.

No caso das fábricas de ônibus, há diferentes componentes que podem ser adquiridos no país vizinho, como janelas e estruturas de borracha, ou matéria-prima, como chapas de aço e de alumínio.

A AGCO, multinacional com fábricas no Rio Grande do Sul e em São Paulo, afirma que foi buscar componentes com provedores da indústria automobilística argentina para trazer ao Brasil e que está com o desafio de achar ainda mais fornecedores.

"Senão, não estaríamos recebendo as licenças que recebemos", diz o vice-presidente sênior Andre Carioba.

Ele justifica a aceitação do modelo no fato de a Argentina ser a segunda potência agrícola da América Latina.

O "uno por uno" se soma a outras formas de pressão sobre empresários brasileiros.

Nos últimos anos, se tornou comum a abertura de fábricas do outro lado da fronteira também como uma maneira de abrir portas junto ao governo. Empresas de calçados e de maquinário agrícola foram alguns dos setores que mais aderiram.

Ainda assim, sapatos fabricados no RS chegaram a completar um ano de espera até a liberação para a entrada na Argentina.

Perguntas enviadas sobre o assunto a representantes do governo argentino não foram respondidas.

Fonte: Folha / FELIPE BÄCHTOLD

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